quinta-feira, 6 de setembro de 2012

                                          MOÇAMBIQUE - MINHA PAIXÃO

     Como não sou muito pedinchão, quero que me dêem só seis (6) coisas para ser feliz: a minha Beira Alta (livre de incêndios, de caciques e de tanto atraso mental); Setúbal (incluindo o "meu" Vitória que só me prega sustos...); Inglaterra (não contando com as pessoas, de quem não gosto); aguardente do Minho; saúde da boa e... Moçambique (afinal estou a pedir já muito)!
      A minha Beira Alta por razões óbvias: nela nasci e passei a primeira infância (infância, disse eu? Ah, não... não tive infância) e porque é um espaço geográfico que tem (quase) tudo para nos sentirmos bem. Tem serras e vales; tem planícies e rios... termas para curar todos os males(excepto a estupidez, a corrupção e o compadrio); os seus ares incomparáveis limpos de poluiçaõ recomendam-se vivamente;
      Setúbal, terra que amo com todas as forças do meu ser porque, para além dumas paisagens deslumbrantes, em que sobressaiem o Sado (conhecido por Rio Azul), a serra da Arrábida com as suas praias aprazíveis; a romântica Tróia inspiradora de poetas e abrigo de amantes do lazer; é também berço de artistas e outros valores da Cultura; tem gente afável e ordeira (apesar de nos anos mais recentes alguns locais se terem convertido em antros de marginais vindos dos quatro cantos do Mundo); foi ali que na minha adolescência comecei a sonhar, a ter pesadelos e consciência de que um futuro sem grandes sobressaltos se constrói com trabalho, humildade e luta;
      A Inglaterra, primeiro país que visitei nas minhas andanças pelos mares, impressionou-me assim que pus os pés em terra. O que via em nada se assemelhava a esta "parolândia" que se chama Portugal... Tinha eu, então, vinte e dois anos, idade ainda de fantasias mas com os olhos já apontados a um porvir mais adulto e sério. Essa grande nação, ao observá-la, consciencializava-me de que a construção dos paises depende da qualidade dos homens que tem;  
      Bagaceira do Minho, feita a partir do bagaço dos cachos de que saiu o vinho verde é, indesmentivelmente, a melhor que há. Logo a seguir a da Beira Alta;
      Pena a saúde não deixar degustar o que mais apreciamos. A saúde, essa vítima dos maus tratos que lhe demos, uns obrigados a isso outros por estupidez, vai-nos retirando o prazer de andar por aí, ainda que saibamos fazer falta... aos médicos e às indústrias farmacêuticas.
      Finalmente... Moçambique (meus amigos: preciso que me ajudem a escolher os termos para definir, com fidelidade, aquele paraiso do Índico...).
      Foi em dia e data que apenas recordo ter sido em Outubro de 1962 que, com o meu pelotão e mais uns tantos indivíduos, embarquei, de manhã, no aeroporto de Lisboa rumo a Moçambique, num avião da Força Aérea Portuguesa (creio que um Dakota). Fizemos escala por Bissau, Luanda (não estou bem certo se também por Salisbúria), cidade da Beira e Loureço Marques. A viagem, que demorou no ar (as paragens em terra não contam) cerca de trinta e duas horas (pra batismo de voo faxavor auene...), foi simplesmente penosa: saimos de cá vestidos com o fato de inverno (e logo no mesmo dia, já em África, foi um inferno com o calor), levávamos connosco espingardas, capacetes, mochilas, sacos com as fardas e artigos de higiene e outros e rações de combate para a viagem. O avião não tinha bancos para nos sentarmos, tinha buracos por tudo quanto era chapa, não havia cintos de segurança, o que originava andar tudo e todos embrulhados uns nos outros quando acontecia um solavanco mais violento.Em suma: uma viagem penosa a por-nos à prova a resistência de jovens que éramos com frios de cortar, de noite, nas alturas e de dia, no chão, parecíamos sorvetes ao sol... encafuados naquelas roupas grossas e quentes, muito boas para usar no inverno numa Europa fria e nunca em tempo de verão nos trópicos escaldantes.
      Era já noite quando chegámos a Lourenço Marques. Sobrevoada a cidade, oh! que maravilhoso espectáculo! Em baixo, um quadro de rara beleza: longas avenidas rasgadas em linha recta, profusa e coloridamente iluminadas, ofereciam a quem chegava,  uma doce sensação.
      Pronto meus amigos: terminou esta viagem. Esperem pela continuação que será em breve.

     

3 comentários:

  1. Depois desta viagem terminada
    Dantes lá no ar um sonho a realizar
    A cidade de Lourenço Marques sobrevoada
    Toda iluminada, tinha beleza de encantar
    De braços abertos recebia os visitantes
    Situada no Oceano Indico à beira do mar
    De longas avenidas e muitos figurantes!

    Mas antes a sua Beira Alta
    E a cidade do Sado
    Saboreada uma boa cachaça
    Feito do puro bagaço.

    Terá muito para contar
    Na viagem continuada
    De Inglaterra falar
    Por ter sido feliz a chegada!

    Talvez triste a partida
    Desejando lá voltar
    Leva pressa na subida
    O comboio para lá chegar
    À chegada e à partida
    Da estação sempre apitar!

    Obrigado amigo Veloso, pela visita
    E comentário poético.
    É bom recordar os sítios por onde passamos.
    Lourenço Marques, Beira, Lago Niassa, Luanda, e outros mais.
    Uma boa noite para o senhor.
    um abraço
    Eduardo.

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  2. Passamos a vida a lamentar-nos, mas não há dúvida que todos nós tivemos também a nossa quota parte de coisas boas de que gostamos à brava.
    E essa viagem até Moçambique sei exactamente como foi, pois na viagem seguinte do famoso Dakota ia lá eu!

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  3. Sorte do caneco... Vera Cruz e viva o velho!

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