sábado, 23 de fevereiro de 2013

REPORTAGENS DE GUERRA


REPORTAGENS DE GUERRA - UMA PURA ALDRABICE

      Seja onde for que qualquer guerra se desenrole, há sempre quem delas se aproveite, ou não fossem elas congeminadas e levadas à prática com o objectivo de tirar daí proveitos. Não trazendo para aqui agora as chacinas, genocídios de povos inteiros (vide índios americanos e etnias africanas, por exemplo), deslocações em massa, roubos, violações, terrorismo, tráfico de armamento, de droga e dinheiro, enriquecimento de uns e desgraça de outros, etc, etc,etc., as guerras também servem para a promoção pessoal, alicerçar carreiras profissionais, intoxicar pessoas e vender mentiras.
      Reportando-me às guerras que conheci na pele e na alma – as guerras ultramarinas – tive tempo suficiente e oportunidades (nas quatro comissões que fiz em Moçambique e Angola) para estar legitimado moralmente a produzir afirmações que só os cultores da aldrabice ousarão pôr em causa.
      Confrange-me o despudor que alguns autores de livros que por todo o país foram (e são) postos à venda, cuja finalidade é ganhar dinheiro usando o trampolim duma guerra que não conheceram, baseando-se em suposições e relatos dúbios. Para quem viveu as situações reais, tais escritos – por deturpadores - só poderão ser atribuídos a aventureiros que outro fito não têm que não seja arrecadar uns euros às custas da credulidade dos compradores.
      Foram muitas as situações que presenciei e que agora me habilitam a desmascarar, ainda que os não identifique – um poderia fazê-lo mas não quero até ver…- alguns que se arrojam a “botar faladura” sobre um tema que lhes é alheio. Alheio porque a realidade lhes passou ao lado ou, melhor, foram eles que passaram ao lado da realidade.
      Quantas vezes aconteceu sermos chamados aos respectivos comandos para recebermos a ordem sacramental: “Senhor Fulano, amanhã, às tantas horas, tem de estar (no aeroporto, estação…) com o seu pessoal para receber um repórter de guerra (do jornal, revista…) que vem fazer a cobertura das nossas actividades operacionais”.
      O repórter era recebido com todas as deferências, alojado nas melhores instalações, abonado à messe dos oficiais onde nos dias de permanência tudo era à grande e à portuguesa(…), fazia-se o turismo possível em zonas onde cheirava a esturro, e por fim, como havia que vender notícia, simulava-se uma emboscada, um golpe-de-mão ou outra merda qualquer para o filme, e lá partia de regresso o nosso hóspede a fazer um figurão no órgão de (des)informação onde despejava mentiras. Sair para o mato, onde a guerra fazia estragos, é que eles não queriam…
      Cheio dessas patranhas, decidi uma vez, no leste de Angola, não colaborar. (Claro que atitudes dessas saíam-me caras, tais como informações “homicidas”, ultrapassagens nas promoções pelos sabujos, posta a PIDE no meu encalço e outras canalhices que nada tinham a ver com competência nem dedicação ao serviço). Mas vamos a factos: - Integrado no Destacamento de Fuzileiros Especiais, em diligência, comandado pelo 1º Tenente Medeiros Ferreira, no Chilombo, em 1969, é-me dado conhecimento, na qualidade de sargento mais antigo, de que naquele dia e com hora prevista, chegaria o jornalista mais famoso da revista mais afamada de Angola para fazer a cobertura do que faziam os fuzileiros naquela nona de guerra. Tudo a postos, rancho melhorado, o cozinheiro (ele sozinho mais maluco e bêbedo de que o Destacamento todo junto), preparou uma carne de porco assado no forno com batatas para o jantar, que merecia a medalha de ouro da culinária, mas, caraças, quando os impedidos transportavam as bandejas da cozinha para as messes atravessando a parada, um piso de areias soltas, apareceu um helicóptero com uma indígena que ia à rasca para parir no nosso posto médico e adeus jantar, minha rica carne de porco… Ao poisar na parada as hélices levantaram uma nuvem de pó e areia tão densa e alta que inutilizou tudo que ia nas bandejas e tudo mais que estivesse descoberto. Alguns ainda tentaram, como eu, aproveitar alguma coisa, mas… cada qual teve de se desenrascar com petiscos. O nosso visitante, já instalado na messe de oficiais, teve azar à sua chegada. Todavia os três dias seguintes foram de férias bem comidas e bebidas sem pagar um chavo, embora se reconheça que nesses dias também nós, por arrastamento, comíamos como gente importante…
      O programa, cozinhado na primeira noite, consistia em fazem um apanhado de toda a actividade, a começar pela alvorada, formaturas, içar e arrear da Bandeira Nacional, passando pelo teatro de operações em confronto com o inimigo. Isto, claro, o que foi colocado no papel para posterior conhecimento público. Pois sim… formaturas, alvoradas e tudo mais passado dentro do aquartelamento foi mais ou menos cumprido; enfrentar o inimigo de máquina de filmar ou fotográfica, como era mais arriscado, optou-se (optaram) por fazer uma simulação de ataque e defesa no rio e margens com botes e armamento manejados por fuzileiros escalados e voluntários, quais actores que levam o embuste tão a sério que conseguem dar-lhe a aparência de ser verdade…
     Para rematar o quadro faltava, ao pôr-do-sol, a cerimónia do Arriar-da-Bandeira. Ali, como era costume, só comparecia o sargento de dia, o cabo de dia para arriar e recolher a Bandeira e a guarda de honra. Havia, como em quase todas as unidades de Marinha, uma tabela/horário do pôr-do-sol, que divergia de dia para dia ( para os menos habituados ou distraídos lembro que o sol nasce e põe-se quase todos os dias a horas diferentes, embora na Marinha, para efeitos do içar-da-bandeira o dia só começa às oito horas). Mas naquele dia, “excepcionalmente”, quiseram emprestar ao acto maior solenidade com a presença do 3º oficial (como era para ir para os jornais – neste caso a revista – valia a pena…). Estava eu de sargento de dia… aproximava-se a hora… mandei avisar o sr, tenente que estava tudo pronto e qual a hora do arrear… ninguém mais aparecia e eu, cumpridor dos regulamentos, procedi à cerimónia do arrear-da-bandeira e mandei destroçar. Já dentro do meu alojamento, sou chamado e ameaçado de procedimento disciplinar… O que se seguiu é que merecia uma rigorosa sanção disciplinar: brincando com coisas sérias como  é a Bandeira Nacional, desrespeitando horários para fabricar uma aldrabice, ordenaram uma nova cerimónia, já ao escurecer, agora com a presença de todo o elenco teatral. Claro que ninguém gostou do meu “excesso de zelo”. Particularmente o “nosso” repórter, que chegou a recear ter que apresentar um trabalho amputado duma parte, visto que aquele era o último dia de turismo.
      Coube-me a mim, que tomei como represália, comandar a escolta que o haveria de acompanhar ao avião na Lumbala. Para prevenir qualquer veleidade do MPLA ou outro “amigo” que andasse ali à caça de nós, ordenei que se preparassem cinco botes com quatro homens cada – dois botes junto a cada margem e um no meio do rio com a bazuca – que as emboscadas naquele percurso eram mais que muitas.
      Pouco tempo decorrido aparece no aquartelamento a revista profusamente enfeitada com fotografias e o título bombástico: TIGRES DO ALTO ZAMBEZE e toda a literatura não passava, como eu já esperava, dum chorrilho de asneiras, que pouco diziam duma realidade oculta. A começar pelo título (que considero um lapso natural, pois o autor com certeza saberá que não há tigres em África, pelo menos naquela parte de África e o que quereria dizer era LEÕES), a opinião pública saiu enganada daquilo que viu e leu. E é de profissionais destes, de escribas destes, de fazedores de notícias destes, que é feita a História de Portugal. E não há excepções?... É verdade que as há. Mas essas, para nosso mal e delas, são ofuscadas pelos aldrabões.