quarta-feira, 14 de novembro de 2012

CÓBUÉ - PRISÃO DE INOCENTES

      Vivíamos num espaço delimitado por arame farpado em terra e pelo lago. Pôr um pé para lá do arame seria correr o risco de accionar uma mina e dizer adeus à vida ou ficar estropiado para sempre. Por via disso havia uma regra - incompreensível - que proíbia as praças de passarem para além dos limites individualmente. Só o poderiam fazer a nível de secção e acompanhadas por um sargento. Os oficiais e os sargentos podiam ir sozinhos ou acompanhados. Não me perguntem por quê porque não fui eu que fiz aquela norma... Nem a faria. 

      Quando não havia operações o pessoal entretinha-se nas mais variadas actividades: - Uns jogavam à batota; outros iam chapinhar para o lago; havia os que liam e também os que estudavam (preparando-se para provas e cursos no regresso à Metrópole); e quem se entregasse a um ritual penoso de "devorar" aerogramas a escrever a familiares, madrinhas de guerra e namoradas; para variar disputavam-se uns jogos de futebol no "estádio do Cóbué", um barroco por detrás do Colégio de S. Miguel que alguém pretendeu transformar em campo para jogos sem o conseguir porque quem ditava as leis da gravidade eram as fortes chuvadas ao arrastarem as terras e deixarem aquele espaço cheio de buracos e regatos. Mesmo assim e à falta de melhor organizavam-se ali renhidas partidas entre o pelotão (quase sempre desfalcado) e o destacamento e outras vezes contra o Exército.Fosse contra quem fosse praticavam-se sempre duas modalidades num jogo(?) só: Começava-se com futebol e acabava-se sempre com "coicebol" - uma modalidade criada por nós e que devia ser homologada já que todos a praticam  em todos os jogos com bola por esse mundo fora... Mas isso era dentro do campo.Cá fora íamos juntos tomar banho ao lago e a seguir próscopos.

      As instalações do colégio, todas em ruinas, foram divididas ao meio: - Metade foi ocupada pelo Exército; a outra metade pela Marinha. A parte que nos calhou fômo-la melhorando como melhor sabíamos e podíamos. Naqueles destroços conseguimos aplicar remendos para termos casernas, refeitório, cozinha, casas de banho (com bidões montados e cheios quando ere preciso pelo fogueiro que prestava serviço no aquartelamente para duches), botica, paiol, padaria, messes, camaratas, produzíamos electricidade e tínhamos água canalizada. Enfim, dentro do nada criámos muito, o indispensável para viver; no capítulo da organização e criação de bem-estar para o pessoal o Exército, talvez porque não era um posto (ou ponto) de permanência mas de passagem, não cuidava, como nós cuidávamos, da parte que lhe fora atribuída. Tinha lá um cabo, que pela aparência deveria ser já bastante antigo, a marcar presença para "defender a soberania". E como estava quase sempre sozinho juntava-se a nós, era mais um elemento da família maruja.

      PERIPÉCIAS AO ACASO
     
      Quando o tenente Ferraz foi promovido a 2º ten.RN foi "visitar" o pelotão na qualidade de seu comandante (nunca percebi por que razão o comandante ficou em Metangula tendo os seus homens ido para o Cóbué, mas isso eram contas do rosário do Barata Botelho e do Rosa Garoupa...). Recebida a mensagem da visita tratámos logo de lhe preparar uma recepção condigna. E nada melhor que uns petiscos "à Cóbué". Assim, combinámos fazer umas caçadas às espécies que havia ali à mão de semear, que eram os patos, as águias-pesqueiras e os corvos. As águias bastava esperá-las encostados ao embondeiro junto ao cais, atirar e apanhá-las; os patos-bravos esperávamo-los também no mesmo sítio mas caçá-los tornava-se mais difícil por andarem sempre a voar; os corvos é que eram mais fáceis de apanhar: bastava pegar na G3 e sentado na minha cama atirava de olhos fechados ao parapeito da janela da camarata e com um só tiro caía uma restolhada deles por detrás do forno. Aqueles desgraçados, para além de não prestarem para comer, por serem duros, ainda me faziam a vida num inferno de manhã à noite com aquele crucitar, empoleirados aos magotes mesmo à minha cabeceira, por cima duma gamela onde se despejavam os restos de comida para uns porcos que alguém levara para lá e onde aquelas aves agoirentas iam banquetear-se. No princípio foram três porcos, porém uma noite foi lá um leão e abasteceu-se... Deixou ainda dois. Um deles foi mordido por uma cobra mas não morreu. A cobra é que morreu. O porco comeu-a. Os porcos não morrem com o veneno das cobras - dizem os entendidos. Possuem um contra-veneno. Pelo menos aquele escapou embora a parte mordida tenha caído, seca, passado algum tempo.  
      Bem, meus amigos, não é meu hábito deixar serviços a meio, mas hoje vou ficar por aqui porque dentro de momentos vai jogar a nossa selecção e eu não quero perder esta oportunidade. Estas peripécias irão continuar oportunamente, tendo como figura central o tenente Ferraz e... outras.   

           

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

MERKL - VISITA (A PROPÓSITO DE COMENTÁRIOS)

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BloggerALBERTINO Veloso disse...
Que confusão aqui vai... Cada cabeça sua sentença e ainda bem que assim é. Melhor ainda quando se se pode expressar livremente. E como assim é, agarro-me ao legítimo direito de pôr cá para fora, oralmente ou por escrito, o que penso, me incomoda ou me apraz. Sendo assim, vou dizer frontalmente que o comentário aqui deixado que se coaduna com os meus pontos de vista é o da Senhora Elvira Carvalho, por traduzir uma realidade que não podemos nem devemos deixar perder na escuridão mental.
A Srª. Merkl e a Tróika, dois diabos à solta a assombrar (leia-se aterrorizar) o Mundo... É isso que também eu acho. Esta gente por onde passa só vai para colher o cereal e deixar o restolho... porque este não lhe serve para nada. Se servisse nem isso ficava. Tudo é verdade. Porém há uma outra verdade que (quase) ninguém refere, uns por ignorância outros por "partidarite" bacoca de que terceiros se aproveitam para continuarem a viver à rédea solta neste pântano de patos-bravos.
Antes de prosseguir com esta crítica viperina eu quero perguntar: somos ou não um país soberano? Se sim, por que permitimos a ingerência de estrangeiros nos assuntos (entenda-se modo de governar) que só a nós compete resolver? Se não - o que parece ser cada vez mais o caso - então a certidão de óbito já foi passada, faltando só fazer o funeral.Os cangalheiros já por aí andam... e não desistem de fazer o enterro que lhes convém.
Bem-vinda, sra. Merkl, à "república dos bananas". Tome conta disto definitivamente, visto que por cá não se consegue arranjar ninguém capaz, faça-se cidadã portuguesa ou faça-me a mim cidadão alemão mas, por favor, não venha dizer a esta cambada de parasitas incapazes de governar esta choldra, que me roubem mais.
Portanto, meus amigos e concidadãos, essa gente da estranja só cá vem (também parasitar) porque aqueles que deviam ser os governantes de Portugal permitem ou, pior ainda, os convidam.
P.S.: Vou tentar passar este comentário para onde possa ser mais lido. Se conseguir muito bem; se não, paciência.
(Afinal consegui!).
12 de Novembro de 2012 03:40

sábado, 10 de novembro de 2012

PEDRA DO FEITIÇO - CF7

      Como tinha prometido ao Laranjeira, e em resposta ao seu comentário sobre a nossa passagem por terras e águas do rio Congo (ou Zaire), começo por descrever - talvez seja melhor dizer historiar - o meu percurso até chegar à Pedra do Feitiço, creio que em setembro de 1969.
      Numa tarde de maio desse ano recebo um telefonema na Escola Naval - onde dava instrução aos cadetes - vindo da Brigada dos Fuzileiros, a dar-me ordens para me aprontar porque ia embarcar para Angola. Julgo que viajei no paquete Infante D. Henrique até Luanda, onde cheguei na véspera do "10 de junho". No dia seguinte "apanhei"  um daqueles aviões muito confortáveis da Força Aérea (...) rumo ao Leste, para substituir o sargento Neto Iria (ou Iria Neto?) que ali morrera. A viagem aérea terminou na Lumbala Nova, seguindo depois em botes pelo rio Zambeze até ao Chilombo, um aquartelamento construído pelos fuzos perdido nos  meandros da selva. Fui tomar conta duma secção da CF7 que reforçava o Destacamento do Medeiros Ferreira (como já anteriormente eu dissera, reforcei tantos destacamentos que me escapa a designação deles). Uns três meses depois fomos rendidos e iniciámos o regresso à Companhia, que eu ainda não conhecia, e decorridas três semanas menos um dia fazíamos a junção em cima daqueles penedos medonhos na Pedra do Feitiço, em frente à "Ilha do Suísso" e um pouco abaixo da cidade de Boma, ambas em território congolês na margem direita do rio.
      A nossa deslocação, dadas as circunstâncias decorrentes, foi uma autêntica odisseia, uma aventura de malucos. Malucos não (só) os que a viveram mas, acima de todos, os que a ordenaram (que bom dar ordens a partir de uma mesa enfeitada com garrafas de whisk e rodeado de sofás sorvendo o prazer refrescante do ar condicionado alheios à pouca sorte ou desgraça que sobre os comandados se abate. ainda melhor quando temos a certeza de que dessas etilizadas ordens vêm louvores, medalhas, promoções e prestígio). Ora vejamos: Da Lumbala  mandam uma secção comandada por um furriel para fazer a segurança duma coluna com oitenta viaturas - leram bem: oitenta viaturas - contando as militares e as civis a caminho de Teixeira de Sousa (hoje parece que Lau ou Luau); todas as viaturas, para além da carga específica, transportavam também passageiros, entre os quais nós, secção. A poucos quilómetros da saída do Chilombo instalou-se logo o granel com o atascanço dum dos camiões, por sinal aquele onde eu ia, que demorou quase um dia a tirar e sem ninguém saber o que era feito dos que seguiam à frente!... Fomos pernoitando onde calhava e como calhava, uns comiam qualquer coisa, outros fingiam que comiam e uns terceiros nem uma coisa nem outra, limitando-se a bocejar quando olhavam para os primeiros.  Chegados ao Marco 25 parámos (não me perguntem por que lhe chamavam isso, que eu não sei... só sei que se não tivéssemos saído dali eu hoje já não contava a história porque os mosquitos não deixavam). Era já noite. A escolta do Exército, que era quem tinha a responsabilidade da defesa da coluna, ordenou que era ali que se pernoitava. Ninguém gostou de ouvir aquilo e os ânimos aqueceram. Por quê? O furriel tinha razão. No Marco 25 terminava a missão dele. De Teixeira de Sousa devia vir a rendição. Quando chegámos já lá devia estar. Mas não estava e o capitão, entidade máxima na área, sentenciou que só seria rendido na segunda-feira seguinte, portanto daí a três dias, pois estávamos na sexta-feira. Claro que ninguém gostou de ouvir aquilo, sobretudo porque decorriam as festas da cidade e quase todos os condutores civis residiam e tinham lá as famílias.
      Ora sabendo a marujada que havia farra na cidade e não querendo perdê-la, procurou logo resolver a situação: Entusiasticamente apoiada pelos civis procurou logo arranjar à pressa um comandante que se responsabilizasse pela caravana até ao fim. E quem tinha que ser? Eu, pois claro. Só que eu não queria nem devia assumir tal responsabilidade primeiro, porque não era uma nomeação; segundo, porque eu era também um passageiro; terceiro, porque com "meia dúzia de espingardas" eu não podia garantir grande coisa para tantas viaturas. Berrei, mandei-os à merda e desapareci para longe.
     Passei longo tempo entregue às minhas cogitações, escondido e em luta cerrada contra os mosquitos até que me foram descobrir e mais uma vez tentar convencer-me... e mais uma vez recusei. 
      Do lugar onde estava ouvia as vozes agitadas dos civis, cada um pondo cá para fora o que lhe ia na alma: "Eu vou-me embora, com ou sem escolta" - berravam uns; "Então vai que eu não saio daqui, porque não quero ver o 3º camião ir pelos ares como já foram os outros dois" - ripostava outro que preparava um monte de capim para passar a noite depois de ter comido as batatas com bacalhau que acabara cozer. "Foda-se"! vomitei eu entre dentes ali sozinho. Aquela situação incomodava-me. Quando vieram ter comigo pela terceira vez eu já tinha uma decisão tomada depois de aturada reflexão: São umas dezenas de viaturas, somos dez fuzileiros armados de G3, mais uns fuzileiros que vão a tratamento ou simplesmente para alguns dias de moina mas todos desarmados, e os civis que têm, cada um, pelo menos uma pistola, já dá para pôr os "turras" em sentido. Se somarmos a isto tudo o facto de ser de noite e por isso mesmo eles ao verem uma coluna tão extensa pensarem que somos muitos e bem armados não se arriscam a chatear-nos.
      Apresentado o meu plano e dadas as minhas instruções, distribuiu-se o pessoal ficando eu no último camião para ter a certeza de que ninguém ficava para trás.
      Luzes, muitas luzes via eu à minha frente a iluminar aquela noite soturna. De repente deixei de as ver. Ao atravessar um pequeno rio o camião, não conseguindo vencer o lamaçal deixado pelos antecedentes, atolou-se, ficando só eu e o condutor entregues a nós mesmos. Apesar do azar tivemos muita sorte. Tudo nos poderia acontecer naquela noite e naquele local. Com ramos, pedras e troncos de árvores conseguimos sair e continuar picada fora. Quando chegámos o silêncio era absoluto, era manhã. Os nossos companheiros de viagem até ao rio onde ficámos, chegaram cinco horas antes de nós!... Chegar a casa o mais depressa possível foi a preocupação primeira. Quem ficou para trás, ficou...
     Na tarde desse sábado, e no auge dos festejos, sou apresentado à população da cidade como herói pela aventura em que me meti e que me podia ter saido cara.
      De Teixeira de Sousa ao destino foram dias e noites de combóio, de navio e de lancha.
          E como esta história já vai longa, vou apenas acrescentar que no rio Zaire o mais acima que subi foi pouco além do posto da Macala. Fiz muitas incursões pelos rios Loé Grande e Loé Pequeno, tendo neles pernoitado algumas vezes a bordo das lanchas. Creio que, com esta explicação, fui suficientemente convincente quanto à veracidade da minha estadia/passagem por aquelas paragens.