quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

A GUARNIÇÃO DO TINTINAINE


                   A GUARNIÇÃO DO TINTINAINE


      Esta guarnição, comandada pelo Almirante Tintinaine (a subida de posto é merecida), é tão grande e diversificada que dá para ser dividida em várias equipas, algumas das quais fragmentadas por esse mundo fora, cabendo-me a felicidade de estar integrado na melhor, se me é permitida a jactância. A ligação mais ou menos estreita entre os seus componentes é de tal ordem quase afectiva que os sucessos e os desaires de uns incomodam de certo modo os restantes. Poderia dizer-se até que todos conhecem - ainda que seja uma pequena parte - o que cada um faz diariamente. Isso é patente nas manifestações de solidariedade expressas nos comentários trocados entre si, quer se trate de dar resposta a trabalhos publicados por cada um, quer seja por se ter conhecimento de que alguém teve ou atravessa problemas na sua vida. Digamos que todos nós, cada qual à nossa maneira, constituímos uma espécie de clínica onde uns procuram tratar as alegrias e as tristezas dos outros. E que melhor forma de tratamento para os que há muito galgaram a barreira dos “entas” senão o avivar-lhes a memória de tempos e locais distantes, factores contributivos para dar algum sentido à vida? Pode ser inserida neste intróito uma prosa da lavra do Eduardo que titulou de Os Sonhos de Albertino Veloso, que viriam a dar origem a comentários vários que deveras me tocaram. Em resposta quis deixar também o meu modesto comentário no espaço habitual, que ninguém veria. Receando essa mais que garantida certeza, decidi responder aqui da maneira que se segue:
Todo aquele que tem amigos
Destes não está sozinho.
Tem refúgio, tem abrigos
Sente o sabor dum carinho.
           =====H=====
Esquece que já é um fardo,
Dá à vida algum sentido,
Tendo por amigo o Querido
E o apoio do Eduardo.
          =====H=====
Tintinaine, o comandante,
Deste grande cruzador
Leva por seu ajudante
O atento Observador.
          =====H=====
Ora diz-me com quem andas
Que eu te direi quem és.
Podes crer que não desandas
Se andares com o Moisés.
          =====H=====
Assenta bem no chão os pés
Veste o hábito de acólito.
Leva contigo o Hipólito
Sem receio dum revés.
          =====H=====
Laranjeira, o sensato,
Nas apreciações que faz
Também o Filho da Escola
Que sem favores nem esmola,
Mesmo lá do seu recato
Mostra do que é capaz.
          =====H=====
Valdemar, longe, na Austrália
O Verde por Trás-os-Montes,
Falta a minha prima Eulália
Pra’nimar estes bisontes…
  =====H=====
Bisontes no bom sentido…
Peço desculpa se passa
Alguém sem ser referido.
.
Bisonte, animal de raça
Indomável, destemido
Só uma forte desgraça
O levará de vencido.
          =====H=====
Eu não sei o que seria
De mim sem vocês todos
Por certo que andaria
A saltar pedras e lodos
Sinto já o qu’antes temia:
Uma vida sem engodos…
          =====H=====
Têm p’la fraternidade
Seus desígnios primeiros.
São defensores da verdade
Ou não fossem fuzileiros…

Um abração a todos.



domingo, 27 de janeiro de 2013

PORTUGUESITOS



      Os Portugueses, este povo estranho no seu comportamento e maneira de pensar faz um bicho-de-sete-cabeças por tudo e por nada. Basta começar a pensar que nada corre bem neste País para desatar a clamar por melhores condições de vida e a fazer barulho por lhe suprimirem direitos adquiridos. À falta de melhores ideias e acções resolve, de tempos a tempos, vir para a rua fazer manifestações contra tudo aquilo que considera estar errado, culpando do seu mau viver os sucessivos governos, com destaque para o actual. Não se coíbe, até, de comparar outros países com o nosso, onde, no seu entender, é tudo melhor.
      Não! Se alguma vez estive em desacordo com tais afirmações esta é uma delas, porque em Portugal, quando julgamos que algo corre mal deveríamos julgar também que temos compensações inigualáveis em qualquer parte do mundo (dito) civilizado.
      Vamos ver: - Temos falta de emprego porque os nossos (des)governantes, em conluio com os seus parceiros europeus se têm encarregado de, paulatinamente, destruir a nossa economia, reduzindo a zero os factores de produção. Isso é verdade; mas, em compensação, temos FUTEBOL para animar e distrair nos amargos momentos que se atravessam; são milhares de estudantes a abandonar o ensino e consequentemente projectados para um futuro incerto por incapacidade económica dos pais para pagarem livros e propinas e o Estado se demite das suas responsabilidades educativas e culturais. Também é verdade; mas, em contrapartida, temos o FADO, esta canção nacional para anestesiar o espírito da malta que fica aos caídos em casa à espera dum emprego que não aparece e, tal como seus pais, aguardando que uma solidariedade qualquer os vá mantendo vivos enquanto não forem tentados a ir roubar para sobreviver.
      Há milhares (ou milhões?) de idosos que deixaram de aviar receitas nas farmácias, outros já nem ao médico vão por não terem dinheiro sequer para comer quanto mais para pagar taxas moderadoras e medicamentos? Estão os pensionistas na miséria e todos os reformados na iminência de atingir a indigência devida à diminuição das suas pensões, aumento do custo de vida e dos impostos? Aumenta dia-a-dia o número de suicídios e de lares desfeitos porque as pessoas se viram dum momento para o outro despojadas dos seus haveres engolidos pelo fisco e bancos porque o corte abrupto dos rendimentos de trabalho, por despedimento, impediu que se honrassem os compromissos? Adensa-se a multidão dos sem-abrigo com os despejados das casas onde moravam para a rua e de crianças que têm na escola a única refeição diária, porque os pais, mesmo recorrendo à “sopa dos pobres”, não conseguem mitigar a fome dos filhos? Aparecem todos os dias notícias de que são encontrados idosos mortos em casa onde viviam sozinhos? Ora, ora, todas essas questões e outras que ficam por colocar são verdadeiras mas, caramba, resta-nos a consolação de termos FÁTIMA ( a Fatinha, como carinhosamente gosto de a tratar) que tudo é capaz de resolver distribuindo milagres por quem lhos pedir a troco de muito dinheiro e ouro, que isso de fazer favores de borla já não se usa… Acontece porém é que nas grandes manifestações de fé, todos os anos e mais de que uma vez levadas a cabo, aquelas centenas de milhar de peregrinos que se juntam no santuário idos de todos os pontos do País e até do estrangeiro, deixam lá mais valores de que os milagres que levam. Mas isso será devido, talvez, aos muitos pedidos que fazem e a santa não ter tempo para atender todos, assim como não tem tempo para prevenir os muitos acidentes, alguns mortais, que se dão com os fiéis que se deslocam para receber as suas graças e deixar ofertas, bem como não impede que na sua divina presença se cometa um sem-número de crimes e ordinarices, a começar nos roubos estendendo-se aos atentados ao pudor. São pungentes as cenas de puro masoquismo, como não se vêm em mais parte nenhuma do mundo civilizado, protagonizadas por pessoas que se arrastam penosamente pelo chão, muitas vezes sangrando dos joelhos e levando consigo crianças, para cumprirem promessas por não terem morrido da operação ao cancro a que foram submetidas, esquecendo-se de que quem fez o “milagre” foram os médicos e todos os profissionais da saúde. Disso, claro está, não tem culpa a santa, assim como não tem culpa de ela própria ter sido fruto dum miraculoso embuste, dum conjunto de mentiras bem arquitectado e posto em prática.
      Como se vê, continuando nós a ter nos momentos cruciais da nossa vida FUTEBOL, FADO e FÀTIMA, por quê tanto pessimismo?
      Há que continuar em frente e mostrar aos estrangeiros que também temos por cá do maior que há. Por exemplo: se nos vierem dizer que os Estados Unidos da América e a Rússia têm as melhores equipas de cientistas, nós, que não queremos ficar atrás, podemos afirmar categoricamente que temos as melhores quadrilhas de ladrões escolhidas pelo povo; se disserem que nenhum país europeu paga tão mal aos seus trabalhadores como Portugal, nós, que somos orgulhosos daquilo que sempre fomos, respondemos que temos os maiores corruptos da Europa e dos maiores do Mundo; para os que nos atacam dizendo que os trabalhadores portugueses são os mais mal pagos da União Europeia, nós calamos-lhes a boca com esta: “Pois somos, mas em ‘contrapartida’ os nossos directores-gerais, presidentes de bancos, administradores e outros que tais, em quantidades (uns e outros) desproporcionadas, são os mais bem pagos do Universo, dando-se até o caso único de alguns receberem por mais de uma empresa, por empresas que não existem e outros nem os pés põem nalgumas das que estão em funções”!
      Então… não temos razões para sorrir? 

domingo, 20 de janeiro de 2013

CONVERSA EM VERSO


              CONVERSA EM VERSO


      Hoje apetece-me conversar com o nosso amigo Eduardo (embora todos possam aplaudir ou apupar) da forma que se segue:

Nunca prestámos p’ra nada.
Pese embora o q’alguns dizem…
Esta Pátria arruinada
‘stá farta de que nos pisem.
          =====HH=====
Vamos hoje ao Alentejo
Conversar com o seu povo
Bem olho mas pouco vejo
Do que por lá vai de novo.
          =====HH=====
Alentejo foi celeiro
De Portugal noutros tempos.
Deu cortiça e dinheiro,
Escravatura e tormentos.
          =====HH=====
Depois os ventos viraram,
A’sperança voltou a nascer…
Arre macho que m’enganaram
Já retomaram o poder!!!
          =====HH=====
O vinho é hoje o oiro
Dum Alentejo perdido.
O trigo já deu o’stoiro
Pobre povo que continuas,
Agora já sem charruas,
Mas ainda “espremido”.
          =====HH=====
Alqueva, a grande esp’rança
Dum Alentejo feudal,
Uma parte de Portugal
Que parou e não avança.
          =====HH=====
Foi dinheiro que s’enterrou,
Outros dirão: submergiu.
Raça desta nunca se viu
A estragar o que é do povo,
Povo que tanto esperou
Que nascesse um país novo.
          =====HH=====
Sol’scaldante nas planícies,
Dum Alentejo imenso,
Tenho náuseas quando penso
Que foram os latifundiários
Com as suas canalhices
Nos forçavam a fadários.
          =====HH=====
Pagando parcos salários,
Enquanto eles, gente rica
Que faziam gastos vários
E p’ra nós diziam: “Estica”!
           =====HH=====
Esticar o quê, meu Deus?
Se não dava p’rò “pitrol”
Ti João ponha no rol,
Quando receber logo pago.
O mê patrão Zé Mateus
Foi passear a Chicago.
          =====HH=====
Chicago ou Conamaim,
Eles faziam tudo que queriam.
Esta país era assim,
Uns gozavam, outros gemiam.
          =====HH=====
Será que algo mudou?
Ou não passa de miragem…
O poder já retomou
Quem nos volta a pôr à margem.
          =====HH=====
Ainda que de passagem,
Curta mas destruidora,
É um fartar vilanagem
Para trás fica a desgraça
Mas pensa a elite devoradora:
Com o tempo tudo passa.

Um abraço para todos e bom domingo.
                

domingo, 13 de janeiro de 2013

RECORDANDO


                     RECORDANDO

      Faz hoje sessenta (60) anos que, da então vila industrial do Barreiro (onde aguardei três dias) parti, de manhã cedo, rumo à Doca de Marinha, em Lisboa, a fim de me apresentar para embarcar numa vedeta ( designação atribuída na Marinha a uma embarcação destinada ao transporte de passageiros) às 0800*, com destino ao Alfeite, mais concretamente ao antigo Corpo de Marinheiros da Armada, para ser inspeccionado. Comigo iam centenas de mancebos, oriundos de várias proveniências e diversos extractos sociais, económicos e culturais, uma amálgama de valores bem distintos nessa época,  que conduzia à demarcação, com bastante nitidez, da distância entre pessoas, segundo o conceito de valores na altura vigente, uma aberração ainda hoje sentida em certos meios. A atestar esta afirmação, o facto de, logo no primeiro encontro de indivíduos que nunca até ali se tinham visto, a formação de grupinhos segundo o modo de vestir, a instrução (que muito raramente ultrapassava a quarta classe), ocupação, quantidade de terras e cabeças de gado que possuíam, se vinham da aldeia, vila ou cidade e, pasme-se, se sabiam discutir futebol e qual o último campeão nacional dessa modalidade! Era o espelho dum Portugal que teimosamente se mantém, pese embora a tentativa dum disfarce para melhor.
      Para trás ficava uma aldeia do Concelho de Carregal do Sal – Viseu – uma aldeia triste sem electricidade nem água canalizada nem esgotos; para trás deixava uma mãe viúva e dois irmãos de tenra idade num casebre lúgubre e indigente em que o caldo de couves era o prato de todas as refeições sem direito a repetição e o conduto, se o havia, resumia-se a uma sardinha partilhada por todos, quer fossem 6, 7 ou 8, sobre um pequeníssimo pedaço de broa; para trás ficavam com menos uma fonte de alimento as centenas de pulgas e percevejos que numa imunda enxerga prenhe de palha de centeio tinham o seu habitat preferido; para trás tinha ficado uma independência sem regras nem controlo, fruto duma anarquia (naturalmente) (con)seguida por quem fora criado sem rei nem roque; para trás ficava uma tribo primitiva confinada ao seu reduto sem direitos reconhecidos pelos próceres do poder. A rotina – onde não havia rádio e a televisão ainda não era falada – era quebrada, invariavelmente, pela missa dominical e por um bailarico de rua se a chuva deixava, quase sempre animado por uma guitarra e uma viola, as mais das vezes desafinadas ou por uma gaita- de- beiços, também ela roufenha devido ao muito uso. A taberna para os homens e o lavadouro no ribeiro para as mulheres eram outras tantas alternativas ao trabalho no campo. Tabernas encerradas à noite, homens bêbedos, mulheres cansadas da azáfama diária e sem qualquer meio de entretenimento, recolhiam à enxerga cumprir o ritual   que melhor sabiam executar: fazer filhos…
      Na Doca da Marinha aguardava-nos uma praça(para os que não sabem, militar de baixa graduação)  para nos conduzir ao Corpo de Marinheiros. Da Base Naval de Lisboa – na altura chamada Intendência da Marinha – seguimos a pé pela Mata do Alfeite até ao Corpo. Pelo caminho, os já citados grupinhos iam-se demarcando. Eu, já nesse tempo avesso a snobismos e a preconceitos balofos separei-me, e, cautelosamente, fui formando o raciocínio que se adequava ao momento e falei comigo mesmo:  “Estás a ver, Albertino, vais rodeado de trampa, sê cuidadoso na escolha das pessoas com quem queres estabelecer amizades, sem pressas. Não conheces aqui ninguém, não sabes quem é esta gente ”.
      Na realidade, os dois primeiros dias seguintes viriam dar-me razão: - Os ladrões, carteiristas, desordeiros, vigaristas, zaragateiros e também excelente rapaziada, eram tudo aquilo em que eu estava embrulhado. Já em plenas inspecções, mormente físicas em que as roupas, malas ou sacos ficavam nos balneários distantes, os larápios, bem conhecedores do “ofício”, aproveitavam toda aquela barafunda para surripiarem tudo que lhes aparecesse e agradasse. Daí, as discussões e cenas de pancadaria, cujo resultado imediato, nalguns casos, era o envio para a prisão ali existente, mesmo sem serem ainda militares. Para esses, as perspectivas dum ingresso na Marinha esfumavam-se logo. A polícia, depois de lhe serem entregues, faria o resto.
      Eu próprio fui vítima das “habilidades” de um dos “artistas”… Em certa altura, numa prova escrita, aproxima-se um de mim e, com o maior à-vontade, pede-me emprestada uma caneta de tinta-permanente que eu trazia no bolso pequeno do casaco, um objecto que para além da sua utilidade constituía um adorno que na época a rapaziada gostava de ostentar. Finda a prova esperei que viesse entregá-la. Qual quê! Perguntei repetidas vezes “onde está o gajo a quem a emprestei a minha caneta?” – já que não fixei o focinho dele – e moita-carrasco… Passei os dois dias a perguntar, um-por-um, pela minha rica peça de estimação e nada. Fiquei sem ela…
      No fim do segundo dia, a 15, depois duma maratona de provas foi lida a sentença ao grupo que sobrou ou passou nos exames médicos no dia anterior e ficou para as provas seguintes: “Quem eu vou chamar  está apto para a Marinha e forma aqui; quem não for chamado está inapto, regressa a casa, e espera que seja convocado para o Exército”.
      Aos aptos foi-lhes atribuído o número de matrícula, entregue um saco-mochila atacado com tudo que viria a ser o enxoval na Briosa tendo ficado de fora um fato de alumínio para se meterem lá dentro a seguir ao cabelo rapado e a um banho de água gelada que, a meio de janeiro e num local “siberiano” como é aquele não foi nada mau para as constipações que vieram logo a seguir.
     Quais palhaços feitos à pressa, de que era a expressão viva a figura que cada um apresentava embrulhado numa roupa que não fora ajustada ao seu corpo, sobressaía o grotesco de se verem uns a arregaçar umas calças que eram pisadas pelas botas (essas sim, tinham as medidas certas), outros a puxar para cima as mangas da blusa que tinham centímetros a mais para além dos dedos e outros ainda cuja blusa, de tão comprida, mais parecia um vestido, lá fomos sob uma formatura “às três pancadas” apanhar a embarcação atracada ali perto para Vila Franca de Xira, o princípio duma eternidade para alguns.
      Já segundos-grumetes recrutas na Escola de Alunos Marinheiros, fomos condenados (sem aspas…) a três semanas de prisão, pois a regra, funda-men-tal, era de que só se podia sair depois de se conhecerem bem os postos, não só da Marinha mas também doutros ramos militares! Três semanas na melhor das hipóteses, porque se houvesse vacilações nos testes semanais sobre a matéria, o(s) desgraçado(s) ficava(m) até aprender(em) bem. A continência – pois é disso que estamos a tratar – constituía um gesto de primordial importância para os que tinham direito a ela e um testemunho de submissão. Daí, os ensaios levados à exaustão, para que o “superior” se sentisse… SUPERIOR perante a reverência dos “inferiores”. E ai daquele que na rua não fizesse a continência porque não viu ou fingiu não ver o “nosso furriel”, o “senhor sargento” ou o “senhor oficial”… Em muitos casos, de nada valiam  as justificações nem os pedidos de desculpas do “infractor”. Tirada a identificação e comunicada à unidade respectiva a ocorrência, a punição tinha-se como certa. Ora para que tal não acontecesse, era ver o bem comportado recruta nas ruas de Vila Franca e de Alhandra a fazer continências a furriéis, sargentos, oficiais, bombeiros, empregados de hotéis, enfim a tudo que usasse farda e divisas ou galões!... Assim não havia razão para o fornicarem.
      Terminada uma recruta que durou 4 meses e indigitado para a especialidade que ia tirar num 1º curso de outros 5/6 meses, abriram-se as portas para um futuro incerto que teria de decidir nos 4 anos de serviço obrigatório que a Lei impunha. E sem que inicialmente estivesse nas minhas cogitações, acabei por multiplicar os 4 anos por 10...
*Na Marinha, as horas escrevem-se em grupos de quatro algarismos. Os dois primeiros representam as horas; os dois últimos os minutos. Ex.: uma hora= 0100;  nove e quarenta e cinco= 0945; meia noite= 2400/0000. Vinte e quatro termina o dia/zeros começa o dia. São portanto duas horas coincidentes. Resta acrescentar que não se usam vírgulas nem pontos a separar os grupos. Na Briosa é assim: tudo prático e simples.
À margem: - Como terão já reparado substituí a foto que andava aí por duas que denominei “Antes e agora”. Antes, aquele jovem de 32 anos que toda a malta conheceu; agora, para verem em que se transformou aquele jovem. Parafraseando alguém de má memória, “é a vida”…

       
    

AO "NOVO FUZILEIRO"


               AO “NOVO FUZILEIRO”

      Neste cruzador superiormente conduzido pelo “comandante” Caros Manuel da Silva, mais conhecido por esta “guarnição” pelo Tintinaine, considero um dever fraternal destacar um elemento, não só pela sua fidelidade como, principalmente, pela sua humildade posta no modo como fala da vida no “seu” Alentejo, qualidades que muito o valorizam. Estou a referir-me ao “Fuzileiro” Eduardo Nunes, “Edumanes”, a quem destino o arrazoado que se segue:
Este Eduardo no seu jeito
De contar suas histórias
Acende apagadas memórias
Que nos merecem respeito.
           =====HH=====
Pobreza não é defeito
Trazida do ventre da mãe.
Defeito é se alguém
Nasceu rico e ficou pobre.
Porque esbanjou a eito
Aquilo que encontrou,
Gastou porque era nobre,
Depois a mama secou.
        =====HH=====
Roubado ou o pai herdou,
E assim os bem-nascidos
São ricos sem o ganharem,
 Estoiram até se fartarem,
Já morreu quem lho deixou,
Choram porque estão falidos.
          =====HH=====
Vendo-se depois perdidos
Num mundo que eles criaram
Não quiseram, não guardaram
Para o dia de amanhã,
Cegos com a esperança vã
De que o bem nunca acaba
Agora, entre ais e gemidos
Sentem que o mundo desaba.
          =====HH=====
Riqueza não é só dinheiro,
Ouro, prata e jóias.
Ter bem cheio o celeiro
À custa de torpes tramóias.
          =====HH=====
Há na vida outras bóias
Que bem podemos usar.
Não entrando em rambóias
Pode o barco naufragar.
Nesta vida tudo muda
E o que é bom também se esvai.
Se não há quem nos acuda
De certeza o mundo cai…
          =====HH=====
Pior de que ser pobre
É ser ladrão e desonesto.
Digo eu, que também presto
P’ra condenar quem encobre
Falcatruas e bandalheiras
De gente que quer ser rica
Mas obriga a passar larica
Com as suas roubalheiras.
          =====HH=====
Eduardo, meu amigo
Por favor, preste atenção:
Somos filhos duma Nação
Que nos quer pôr na miséria,
Que nos sujeita a um castigo
Sem dó nem comiseração.
Olhe qu’isto é coisa séria…
Nunca vi tanto ladrão.
          =====HH=====
Também fui dos que pedia pão
E a minha mãe me dizia:
Olha, filho, não há mas um dia
Irás ter o pão que quiseres.
Terás garfos e colheres
E comida com fartura.
Tem fé que o ladrão
‘inda vai ter vida dura.

    Os meus amigos desculpem, todos sabemos que o Eduardo merecia melhor mas… olhem… fiz o que sei.