Faz hoje sessenta (60) anos que, da então vila industrial do Barreiro
(onde aguardei três dias) parti, de manhã cedo, rumo à Doca de Marinha, em
Lisboa, a fim de me apresentar para embarcar numa vedeta ( designação atribuída
na Marinha a uma embarcação destinada ao transporte de passageiros) às 0800*,
com destino ao Alfeite, mais concretamente ao antigo Corpo de Marinheiros da
Armada, para ser inspeccionado. Comigo iam centenas de mancebos, oriundos de
várias proveniências e diversos extractos sociais, económicos e culturais, uma
amálgama de valores bem distintos nessa época, que conduzia à demarcação, com bastante
nitidez, da distância entre pessoas, segundo o conceito de valores na altura
vigente, uma aberração ainda hoje sentida em certos meios. A atestar esta
afirmação, o facto de, logo no primeiro encontro de indivíduos que nunca até
ali se tinham visto, a formação de grupinhos segundo o modo de vestir, a
instrução (que muito raramente ultrapassava a quarta classe), ocupação,
quantidade de terras e cabeças de gado que possuíam, se vinham da aldeia, vila
ou cidade e, pasme-se, se sabiam discutir futebol e qual o último campeão
nacional dessa modalidade! Era o espelho dum Portugal que teimosamente se
mantém, pese embora a tentativa dum disfarce para melhor.
Para trás ficava uma aldeia do Concelho de Carregal do Sal – Viseu – uma
aldeia triste sem electricidade nem água canalizada nem esgotos; para trás
deixava uma mãe viúva e dois irmãos de tenra idade num casebre lúgubre e
indigente em que o caldo de couves era o prato de todas as refeições sem
direito a repetição e o conduto, se o havia, resumia-se a uma sardinha
partilhada por todos, quer fossem 6, 7 ou 8, sobre um pequeníssimo pedaço de
broa; para trás ficavam com menos uma fonte de alimento as centenas de pulgas e
percevejos que numa imunda enxerga prenhe de palha de centeio tinham o seu
habitat preferido; para trás tinha ficado uma independência sem regras nem
controlo, fruto duma anarquia (naturalmente) (con)seguida por quem fora criado
sem rei nem roque; para trás ficava uma tribo primitiva confinada ao seu reduto
sem direitos reconhecidos pelos próceres do poder. A rotina – onde não havia
rádio e a televisão ainda não era falada – era quebrada, invariavelmente, pela
missa dominical e por um bailarico de rua se a chuva deixava, quase sempre
animado por uma guitarra e uma viola, as mais das vezes desafinadas ou por uma
gaita- de- beiços, também ela roufenha devido ao muito uso. A taberna para os
homens e o lavadouro no ribeiro para as mulheres eram outras tantas
alternativas ao trabalho no campo. Tabernas encerradas à noite, homens bêbedos,
mulheres cansadas da azáfama diária e sem qualquer meio de entretenimento,
recolhiam à enxerga cumprir o ritual que melhor sabiam executar: fazer filhos…
Na Doca da Marinha aguardava-nos uma praça(para os que não sabem,
militar de baixa graduação) para nos
conduzir ao Corpo de Marinheiros. Da Base Naval de Lisboa – na altura chamada
Intendência da Marinha – seguimos a pé pela Mata do Alfeite até ao Corpo. Pelo
caminho, os já citados grupinhos iam-se demarcando. Eu, já nesse tempo avesso a
snobismos e a preconceitos balofos separei-me, e, cautelosamente, fui formando
o raciocínio que se adequava ao momento e falei comigo mesmo: “Estás a ver, Albertino, vais rodeado de trampa,
sê cuidadoso na escolha das pessoas com quem queres estabelecer amizades, sem
pressas. Não conheces aqui ninguém, não sabes quem é esta gente ”.
Na realidade, os dois primeiros dias seguintes viriam dar-me razão: - Os
ladrões, carteiristas, desordeiros, vigaristas, zaragateiros e também excelente
rapaziada, eram tudo aquilo em que eu estava embrulhado. Já em plenas
inspecções, mormente físicas em que as roupas, malas ou sacos ficavam nos
balneários distantes, os larápios, bem conhecedores do “ofício”, aproveitavam
toda aquela barafunda para surripiarem tudo que lhes aparecesse e agradasse.
Daí, as discussões e cenas de pancadaria, cujo resultado imediato, nalguns casos,
era o envio para a prisão ali existente, mesmo sem serem ainda militares. Para
esses, as perspectivas dum ingresso na Marinha esfumavam-se logo. A polícia,
depois de lhe serem entregues, faria o resto.
Eu próprio fui vítima das “habilidades” de um dos “artistas”… Em certa
altura, numa prova escrita, aproxima-se um de mim e, com o maior à-vontade,
pede-me emprestada uma caneta de tinta-permanente que eu trazia no bolso
pequeno do casaco, um objecto que para além da sua utilidade constituía um adorno
que na época a rapaziada gostava de ostentar. Finda a prova esperei que viesse
entregá-la. Qual quê! Perguntei repetidas vezes “onde está o gajo a quem a
emprestei a minha caneta?” – já que não fixei o focinho dele – e
moita-carrasco… Passei os dois dias a perguntar, um-por-um, pela minha rica
peça de estimação e nada. Fiquei sem ela…
No fim do segundo dia, a 15, depois duma maratona de provas foi lida a
sentença ao grupo que sobrou ou passou nos exames médicos no dia anterior e
ficou para as provas seguintes: “Quem eu vou chamar está apto para a Marinha e forma aqui; quem
não for chamado está inapto, regressa a casa, e espera que seja convocado para
o Exército”.
Aos aptos foi-lhes atribuído o número de matrícula, entregue um
saco-mochila atacado com tudo que viria a ser o enxoval na Briosa tendo ficado
de fora um fato de alumínio para se meterem lá dentro a seguir ao cabelo rapado
e a um banho de água gelada que, a meio de janeiro e num local “siberiano” como
é aquele não foi nada mau para as constipações que vieram logo a seguir.
Quais palhaços feitos à pressa, de que era a expressão viva a figura que
cada um apresentava embrulhado numa roupa que não fora ajustada ao seu corpo,
sobressaía o grotesco de se verem uns a arregaçar umas calças que eram pisadas
pelas botas (essas sim, tinham as medidas certas), outros a puxar para cima as
mangas da blusa que tinham centímetros a mais para além dos dedos e outros
ainda cuja blusa, de tão comprida, mais parecia um vestido, lá fomos sob uma
formatura “às três pancadas” apanhar a embarcação atracada ali perto para Vila
Franca de Xira, o princípio duma eternidade para alguns.
Já segundos-grumetes recrutas na Escola de Alunos Marinheiros, fomos
condenados (sem aspas…) a três semanas de prisão, pois a regra, funda-men-tal,
era de que só se podia sair depois de se conhecerem bem os postos, não só da
Marinha mas também doutros ramos militares! Três semanas na melhor das
hipóteses, porque se houvesse vacilações nos testes semanais sobre a matéria,
o(s) desgraçado(s) ficava(m) até aprender(em) bem. A continência – pois é disso
que estamos a tratar – constituía um gesto de primordial importância para os
que tinham direito a ela e um testemunho de submissão. Daí, os ensaios levados
à exaustão, para que o “superior” se sentisse… SUPERIOR perante a reverência
dos “inferiores”. E ai daquele que na rua não fizesse a continência porque não
viu ou fingiu não ver o “nosso furriel”, o “senhor sargento” ou o “senhor
oficial”… Em muitos casos, de nada valiam as justificações nem os pedidos de desculpas
do “infractor”. Tirada a identificação e comunicada à unidade respectiva a
ocorrência, a punição tinha-se como certa. Ora para que tal não acontecesse,
era ver o bem comportado recruta nas ruas de Vila Franca e de Alhandra a fazer
continências a furriéis, sargentos, oficiais, bombeiros, empregados de hotéis,
enfim a tudo que usasse farda e divisas ou galões!... Assim não havia razão
para o fornicarem.
Terminada uma recruta que durou 4 meses e indigitado para a
especialidade que ia tirar num 1º curso de outros 5/6 meses, abriram-se as
portas para um futuro incerto que teria de decidir nos 4 anos de serviço obrigatório
que a Lei impunha. E sem que inicialmente estivesse nas minhas cogitações,
acabei por multiplicar os 4 anos por 10...
*Na Marinha, as horas escrevem-se em
grupos de quatro algarismos. Os dois primeiros representam as horas; os dois
últimos os minutos. Ex.: uma hora= 0100;
nove e quarenta e cinco= 0945; meia noite= 2400/0000. Vinte e quatro
termina o dia/zeros começa o dia. São portanto duas horas coincidentes. Resta
acrescentar que não se usam vírgulas nem pontos a separar os grupos. Na Briosa é
assim: tudo prático e simples.
À margem: - Como terão já reparado
substituí a foto que andava aí por duas que denominei “Antes e agora”. Antes,
aquele jovem de 32 anos que toda a malta conheceu; agora, para verem em que se
transformou aquele jovem. Parafraseando alguém de má memória, “é a vida”…