domingo, 30 de dezembro de 2012

QUEIXINHAS DE VELHO


QUEIXINHAS DE VELHO RABUGENTO

 

Para aqui num canto sozinho

A lembrar-me do passado

Num Natal sem um carinho

Ai de mim que estou lixado…

 

Trabalhei uma vida inteira.

Mas talvez nem sempre bem…

…Se calhar, foi sempre mal.

Hoje ao calor desta lareira

Penso muito mais pr’além…

Julgo qu’é por ser Natal.

 

Construí uma família,

Hoje, estou sem ninguém!

Estou para aqui de vigília,

Vendo se aparece alguém.

 

Tenho filhas e tenho netos

Todos eles me convidaram

Para a Ceia de Natal.

Mas por quê eu, afinal

Que sofro dos joanetes

Tenho qu’ir pr’aonde “mandaram”?

 

Se houvesse mais sentimentos

Pelos que estão no fim da vida,

Muitos, muitos sofrimentos

Jamais teriam guarida.

 

Os novos a velhos chegam,

Pensem nisso seriamente.

Se não lançam a semente

Para colherem bons frutos,

Vão encontrar outros brutos

Que também não os aconchegam.

 

    “Inventem” felicidade para vocês e para os outros, pelo menos nesta quadra festiva (festiva para alguns).

 

 

 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

CAÇADA AOS PARASITAS


                                  CAÇADA AOS PARASITAS

      Já que o nosso amigo Carlos (Tintinaine) me lançou o desafio, agora que me ature, pois que as balas que eu tenho para disparar as vou pondo cá para fora em atenção a ele. Bem, convém deixar aqui um parêntesis para dizer que eu tenho absoluta liberdade para me exprimir da forma que me apetecer (que pode ser em forma de pseudo poesia e sem beliscar a honra seja de quem for) e ele, Carlos, tem toda a legitimidade para me mandar dar “volta à conversa” e ir rimar para outro lado. Enquanto ele se mantiver calado falo eu e para começar aí vai disto:

 

Anda pulga no meu colchão,

Sai daí pulga atrevida!

Só à custa de canhão

É qu’eu te tirava a vida.

 

Vá eu p’ra onde for

Não me largas, queres é sugar…

Não me deixas descansar

Arre, porra, que estupor!!!

 

Tomaste o gosto e agora

Quando queres já não hesitas.

Sai daí pulga, vai-te embora!

Estou farto de parasitas.

            ====oOo===

Coelho à solta é perigoso,

Fechado, só com firmes Portas

À caçador é que sabe bem,

Se aromático e apetitoso.

Gosta de andar pelas hortas

Mas foge se ouve alguém…

 

Covarde e fugidio.

É só ele e mais ninguém

Enquanto o pau vai e vem

Vai-nos comendo as couves.

Tem o instinto bravio

Gostas dele mas não o louves.

 

Estou roubado e agora velho,

Que fazer? É ir sem demora,

“Gaspar-me” daqui para fora

Montado naquele  escaravelho.

              ===oOo===

      E agora, para fechar, esta é para mim, que também tenho direito:

 

Quem te disse qu’eras poeta

Bem te fodeu e agora

Pira-te daqui para fora

Sem perda de tempo ó pateta!

 

FANTOCHADAS NATALÍCIAS


                                     FANTOCHADAS NATALÍCIAS

 

       Que me desculpem os crentes, as (poucas que ainda há) almas caritativas, os puritanos, os “bem pensantes”, os moralistas, filósofos, embusteiros, negociantes, parolos e as crianças enganadas (que são quase todas) eu referir-me à Quadra Natalícia (estive para escrever com minúsculas mas não sou assim tão quadrado…) em termos pouco convencionais, mas se o não fizer será cometer adultério para com a minha própria consciência. Isto é, usar uma linguagem diferente seria admitir o inverso daquilo em que acredito.

      Quadra propícia ao desencadear dum turbilhão de mentiras apoiadas em mitos e fantasias, ela presta-se (ou terá sido para isso que foi inventada) para alcançar dúbias finalidades, tão ao gosto de certas congregações religiosas, dos comerciantes, dos políticos – mormente dos governantes – e de outros oportunistas.

      As campanhas publicitárias atingem um tal grau de intoxicação psicológica que as pessoas de espírito mais frágil se deixam arrastar para a aquisição do que não lhes faz falta, comprometendo ainda mais uma situação económica já de si deficitária.

      É o dia da família – dizem do dia de Natal – é o dia em que todos se reúnem para confraternizarem, trocarem prendas e desejarem que o ano que está aí à porta seja repleto de coisas boas. Blá, blá, blá, comido o bacalhau, as filhós (filhoses como se diz na minha aldeia) e o peru cada qual retoma a rotina e adeus família até para o ano para mais uma dose de fantochada porque durante os outros 362/3 dias do ano ninguém passa a saber mais nada uns dos outros. Os mais novos raramente se lembrarão dos pais e ou dos avós, os idosos serão remetidos novamente ao reduto do esquecimento, quando não votados ao completo desprezo.

      Corre o tempo da desvalorização do ser humano como tal. Todos temos consciência disso. Neste mundo e época de incertezas valorizamos mais o HOJE e o EU em detrimento do AMANHÃ e do conjunto. Se eventualmente fazemos algo de bom ou temos um rasgo de generosidade para com o vizinho do lado não é com espírito genuinamente fraterno mas porque desejamos que quem nos rodeia repare no nosso gesto. O egocentrismo turva-nos a faculdade de aceitarmos o razoável. Somos casmurramente subjectivos e pouco objectivos. Temo-nos por alvos centrais do Universo, sobre que ou quem deve(m) convergir todas as atenções, esquecidos de que à nossa volta outras pessoas existem também com anseios e aspiraçãoes, com iguais direitos e deveres. E valores morais, profissionais, culturais e de personalidade.

      É Natal, há festas por todos os lados, assomos de caridade, espaço de confraternização: o Natal dos Hospitais, o Natal das Prisões, o Natal dos Sem-abrigo, o Nat… dos ricos…, dos pobres e… dos mortos. Sim, o Natal dos Mortos… Nesse dia também os mortos serão lembrados em muitos lares e locais. Serão eles os únicos cuja evocação será sincera, já que os vivos, ao promoverem um ritual cada vez mais despido de sentido, se entregam a uma manifestação de fachada, tentando esconder o que de facto são: VERDADEIRAMENTE HIPÓCRITAS.

      É Natal, quadra propícia ao “derramamento” dum vasto caudal de discursos alusivos, com especial destaque para os políticos, que tudo farão para anestesiar as mentes empedernidas e os desesperados da Vida, acenando-lhes com perspectivas dum porvir mais risonho. Sabem que estão a mentir mas também sabem a “qualidade” dos ouvidos que estão dispostos a escutá-los… Dentre todos esses políticos convirá estar atento a dois em especial: Presidente da República (dos Bananas) e do Primeiro-ministro. Desconheço se já proferiram o seu discurso ou ainda não. Seja como for espero, embora não os queira ouvir, que não tenham o descaramento de desejar um Bom Ano Novo ao Povo Português (àquele Povo que sem culpas nenhumas está agora a pagar com juros os roubos que os ricos deste antro cometeram com a conivência de quem governa), sabendo que o vão empurrar para a miséria. Se nos seus discursos empregarem esses termos, bem teremos que classificar tais discursos como sendo os mais cínicos de sempre cuspidos por quem tem pouca noção do que é vergonha e respeito pelo povo que os sustenta.

     Para terminar e sem cinismo, quero desejar a todos engenho e paciência para darem alguma cor e amor ao vosso Natal, e se puderem partilhar um pouco desse amor com mais alguém que dele necessite tanto melhor, e, olhem, o ano que está a chegar que não seja tão mau como receamos.     

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CAPITALISMO OU COMUNISMO?


CAPITALISMO OU COMUNISMO – QUAL O MELHOR (OU PIOR) SISTEMA POLÍTICO?

 

      É óbvio que a pergunta é propícia a respostas divergentes, como divergentes são as filosofias em que ambos se apoiam. Mas não é num curto espaço escrito e de tempo que vou traçar as virtudes e ou defeitos de qualquer deles, dado que tal seria um nunca mais acabar de contradições que a nenhum resultado prático levariam. Quero tão-somente compará-los à luz duma realidade que ninguém, por mais erudito que seja na matéria, ousará contradizer com seriedade.

O DESEJO DE POSSE

      Todos nós, sem excepção, desejamos possuir bens matérias. É apanágio do ser humano. Dizem os defensores do Capitalismo ser este o sistema que confere a cada um o direito à posse do que lhe pertence ou vier a pertencer, ao contrário do Comunismo, que não reconhece direitos sobre a propriedade privada, sendo tudo pertença do Estado. Repetido isto pelos paladinos de tão execrando quão desumano sistema, acolitados pelos papagaios ao seu serviço, os lambe-botas, é acolhido pelas massas populares menos esclarecidas como verdades, incutindo nos espíritos débeis a crença de que o Comunismo é a destruição dos valores que mais amamos. E é sobre esta insegura prancha que em mares agitados navegamos, constantemente receosos de irmos ao fundo sem sabermos bem a qual dos dois “amigos” nos podemos agarrar. Este raciocínio, fruto de refinado obscurantismo emana só de pessoas acéfalas (que infelizmente são ainda muitas) que se deixam conduzir por cabeças alheias e seduzir por gestos e palavras que outro objectivo não têm que não seja enganá-las.

      Não quero, por desnecessário, estabelecer nenhum confronto filosófico-dialéctico com os crânios bem- pensantes sobre o assunto, considerando que isso não levaria a nada. Quero só jogar com dados concretos, aqueles de toda a gente bem conhecidos e visíveis, e portanto indesmentíveis.

FACTOS BEM À VISTA

      Os capitalistas e os papalvos sonhadores que os ouvem embevecidos, pregam aos Quatro Ventos que o Capitalismo é o maior (senão único) garante da propriedade privada, do emprego, da saúde, da educação e da justiça igual para todos, ao contrário do Comunismo, essa aberração social em que nada é de ninguém e tudo é do Estado. Vamos ver se é verdade neste Portugal livre, democrático e capitalista:

      - Andei 58 anos a passar sacrifícios de vária ordem para comprar uma casa; comprei-a, paguei-a, fiz as respectivas escrituras, que também paguei. A partir daí eu era já um proprietário. Tinha uma casa… minha. Minha? – Não! Todos os anos o Estado me vinha pedir dinheiro por um bem que eu já tinha pago integralmente; a seguir comprei um carro que paguei no acto da compra. Passei a ter um carro… meu. Meu? – Não! Todos os anos eu tinha de pagar o(s) imposto(s) que o Estado me exigia; herdei dos meus pais uma pequena propriedade rural e comprei outra, tendo todos os anos cumprido com as imposições fiscais. Um azar porém bateu-me à porta… Ao terem-me roubado os subsídios anuais e cortado na pensão de reforma e como ando de pé graças aos muitos e caros remédios que tomo, deixei de pagar os impostos. O resultado foi confiscarem-me casa, carro e terrenos, que reverteram a favor do Estado.

      Chegados aqui é forçoso perguntar: afinal quem é mais ladrão? Será o Comunismo, que sendo o proprietário de tudo a todos assegura habitação, emprego, estabilidade económica e social ou o Capitalismo que não garante nada a quem o serve e se arroga ao direito de ser dono de tudo que tanto nos custa a ganhar? Sem ter pago nada, açambarca o que diz ser dos cidadãos. Despudorada mentira, como é peculiar em quem só sabe e quer viver à custa do suor alheio.

      Tudo que acabo de dizer não passa de uma constatação e algumas passagens deste texto são figurativas. Porque, para o meu gosto, se me derem a escolher um deles escolho… nenhum.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

domingo, 16 de dezembro de 2012

POESIA PACÓVIA


                 POESIA PACÓVIA

      Hoje, para desopilar, deu-me para isto… Não é para fazer “concorrência” ao Eduardo, porque esse tem lugar cativo nesta tribuna. É tão só para desintoxicar o espírito, demasiadamente poluído pelos acontecimentos dos últimos tempos. Não quero (porque não sou capaz…) enveredar pela presunção de que chegou a altura de revelar dotes de poeta ou lá o que é que se chama a alguém que num determinado momento se aventura a construir umas tantas palavras que rimam. O que me impele para esse tipo de comunicação é o choque que certas situações me provocam, que expressá-las de outra forma se me afigura menos estimulante para as consciências adormecidas. Abordarei, assim, quadros dispersos do quotidiano, aqueles que mais me feriram (e ferem) a atenção e para os quais eu gostaria de chamar também a atenção de todos, com especial destaque dos políticos.

VAGABUNDO

      Passava eu num espaço público de Lisboa e vejo um – dos muitos que enxameiam este País – sem-abrigo estendido no chão, coberto de algumas folhas de cartão, único agasalho ao seu alcance. Parei junto a ele, tirei-lhe algumas fotografias e prossegui o meu caminho ruminando estas palavras:

 

Dorme, vagabundo, dorme…                 

Esquece a hipocrisia enorme

Que grassa por este mundo.

Mas com falinhas de veludo

Fazem-te esquecer tudo

Dorme, dorme, vagabundo. 

 

                                                          

 O teu lar é a rua

 Dormes no chão… onde calha

 És pária, és escumalha

 Mas a culpa não é tua.

 

Vota “neles”, vai tendo fé,

Vai pensando que ainda contas…

És tolo porque descontas

O cinismo dessa ralé.

 

ISTO É UM ASSALTO!!!

      Paro… olho para trás… e que vejo? Um percurso pejado de dificuldades de toda a ordem; olho para o presente e… tenho medo do futuro. Sinto que estou a ser despudorada e desumanamente assaltado. E…

 

Ao pensar que já estou velho,

E tanto penei na vida,

Põe-me agora este fedelho

Neste beco sem saída!        

      

 Que país este, meu deus,

 Infestado de comilões?  

 Mentirosos e ladrões,

 Que matam o povo à fome.

  Pobre à mesa já só come

  O resto dos fariseus.

 

Olho à direita… está tudo feio!

À esquerda… feio está!

Do centro tenho receio,

Já não sei para onde vá.

 

 Todos bons a prometer…

  Mas a cumprir nem por isso…

  O que querem é comer

  Do porco? Nem um… chouriço.

 

Nesta pocilga infernal,

Neste beco sem saída

Onde os porcos tratam mal

A quem lhes dá a comida.

                                                                                                                                            

sábado, 8 de dezembro de 2012

CÓBUÉ - PRISÃO DE INOCENTES (CONT.)


CÓBUÉ – PRISÃO DE INOCENTES (Cont.)

 

      À pergunta do Ten. Ferraz “Sargento Veloso, o que é o almoço?”, respondi-lhe: Senhor tenente, o almoço vai ser: primeiro, uma caldeirada e ou peixe frito para quem quiser; a seguir temos, estofados, patos numa caçarola e águias e corvos noutra.  Oh! Covos e águias?... Eu no quero essas porcarias. Só quero pato! Pronto, Sr. Tenente, só come pato… E arranquei dali a correr avisar o Costa: Olha, pá, vamos pregar uma partida ao Sr. Tenente … vamos trocar os nomes aos “bichos”. Aos corvos e às águias  chamamos-lhes patos e vice-versa, OK? Temos é que avisar a malta toda para que não haja falhanço.

      Tratando-se dum Rancho da Porca, ainda que especial, comemos todos juntos. No paiol de géneros para estarmos mais perto do vinho. E perto da cantina… da cerveja.

      Depois da caldeirada, primorosamente confeccionada, seguiu-se a carne. “Sargento Velooooso (naquele sotaque tipicamente madeirense), olhe qu’eu nooo querooo cá águia nem corvooo”. O pessoal está avisado, Sr. Tenente… ó rapaziada (previamente ensaiada), o pato é prò Sr. Tenente. Claro que todos podem comer, que há com fartura.

      Criada alguma barafunda com a ocupação de lugares e circulação de caçarolas, “o nosso madeirense” enganou-se e começou a comer pato! A surpresa pôs-nos a olhar uns para os outros e momentaneamente ficámos sem reacção. De repente ocorre-me uma ideia: “Então Sr. Tenente Ferraz, disse que só queria pato e vejo-o a comer, satisfeito, águia e corvo? Afinal gosta… Oh, oh! No gosto nada… tou a comer pato (e estava). Não, o pato está naquela caçarola. Enganou-se. Confundiu uma com a outra.  Porra, foda-se! – berrava o nosso visitante ao mesmo tempo que atirava para longe o pedaço de carne que tinha nas mãos – eu tava a comer meio desconfiado porque não me sabia a pato… Pois, passe agora a comer dali.

    Ah! Este está bem! É do que eu gosto. – Então coma, que há para aí muito. E comeu bem e bebeu melhor. Só se queixava de que era muito dura aquela carne. “Que patos tão rijos, mais rijos que os corvos, o molho é que tá bom”. Então molhe pão, faça sopas que são mais macias – diziam-lhe alguns sarcasticamente.  E sacanamene ainda lhe ofereci:  prove a pata deste corvo…  “Nem pensar! Só de me lembrar tenho nojo”!

      No final da petisqueira, já todos bem comidos e melhor bebidos e fartos de gozar a situação sem o destinatário da chacota se aperceber há um que atira: Que tal estavam os corvos e as águias? No sei, só provei “aqueles” no princípio e no gostei – foi a resposta categórica. Ai comeu, comeu… e bastante – disseram todos em coro debaixo de sonoras gargalhadas que deixaram o ingénuo Ten. Ferraz embaraçado, que bem tentou, sem conseguir, fazer crer  que sabia ou desconfiava da partida, dizendo mesmo que às tantas teve a percepção de que não era pato que estava a comer. Tarde de mais para disfarçar. Caiu que nem um pato na caçarola dos corvos…

      O resto do dia foi passado “em cheio”, como o podem comprovar as fotos que enviei ao Tintinaine, a quem peço o favor de ilustrar este trabalho  com a(s) que ele achar que se enquadra(m) no texto. Foi tão em cheio que nem um festival de fogo real e muito sério faltou…

      FORAM CAÇAR E IAM SENDO CAÇADOS

      No auge da “cóbuéada”  vem o Tenente Ferraz ter comigo para me dizer que ele e o Lúcio (padeiro) iam lá para baixo, para as imediações do cais, fazer uma caçada aos patos. Recebida a informação, fui logo avisar a marujada e o Alferes Dias para este alertar o pessoal dele. E isto porquê e para quê? Ora como muitos ainda estarão recordados, havia uma convenção em vigor para os ocupantes do Colégio de S. Miguel que consistia em tomar imediatamente postos de combate e reagir quando se ouvisse mais que dois tiros seguidos. Mais de dois tiros sem serem anunciados era considerado ataque vindo do exterior. Havia, portanto, que avisar todas as pessoas quando saíamos do recinto demarcado prevenindo-as da possibilidade de serem feitos disparos.  

      Entretidos nas nossas palhaçadas, fomos despertados por um violento tiroteio, desencadeado pela magala, pois que o alferes esteve-se nas tintas para o aviso que lhe fora feito. Perante uma situação completamente anárquica, em que cada soldado, sem rei nem roque, tomava posições e disparava cegamente na direcção do cais, tive que intervir mandando parar, receando que dentro em pouco tivéssemos de ir buscar dois cadáveres… tal a intensidade do fogo de armas automáticas e morteiradas dirigido aos “nossos caçadores”.

      Intervim, mas não fui obedecido, ficando eu naquele momento com a convicção de que aquela gente agia mais por instinto do que em obediência a uma preparação prévia e adequada para o tipo de missão que lhe fora destinada. E percebe-se porquê, como mais adiante explicarei.

      Procurava eu impor alguma ordem naquele granel, quando me aparece o Alferes Dias, desorientado, a tentar justificar o injustificável e a pôr cobro àquele ataque selvagem. Com alguma resistência dos seus próprios homens lá conseguiu “dar volta à faina” e mandar recolher as armas. Como é de calcular, atirei-me a ele que nem gato a bofe – verbalmente, claro – perguntando-lhe “E agora como vai ser, Sr. Alferes? Possivelmente temos dois homens mortos por culpa sua… dois homens mortos da forma mais estúpida que se possa conceber! Avisei-o, não avisei?  E o senhor o que é que fez? Foi para a sala de oficiais indiferente ao que pudesse acontecer. Daqui em diante vai ter o diabo a tomar conta de si. Eu cumpri com a minha parte que foi dar-lhe conhecimento. Há testemunhas. O senhor, olhe, vá preparando a sua defesa”.

      Ouviu tudo em silêncio, e em silêncio se afastou de mim. Penso que naquele momento ele estaria a tomar consciência de que a partir dali “mais um sarilho” iria bloquear-lhe a vida se calhar para sempre. O primeiro sarilho foi aquele que ditaria o castigo de ser mandado para Moçambique, para ali. Eu troco isto por miúdos. Segun do o relato de colegas dele, antes de ser o Alferes Dias, tinha sido o Furriel Dias. Angolano, filho de Administrador duma Circunscrição angolana, fez uma comissão como furriel miliciano na guerra de Angola. Cumprido o tempo de tropa que lhe fora exigido foi desmobilizado (passou à peluda, em gíria militar); à saída do quartel, já trajando civilmente, encontra um antigo colega de estudos, trocam cumprimentos, contam episódios recentes e recordam os passados, tudo em voz alta, pois a euforia de se sentir livre não tinha limites e… “Meu Furriel, acompanhe-me por favor ao Gabinete do Nosso Comandante” – pediu o comandante da guarda à Unidade. O já ex-furriel ainda objectou que agora era civil e por isso não tinha nada que obedecer, mas a ordem estava dada , tinha de ser cumprida.

      Conhecida a sentença que em poucos minutos foi decidida e em poucos segundos lida, o nosso agora já Alferes Dias sentiu-se transportado para um mundo irrealista, estava distante de tudo que se possa considerar material. Não, para ele tudo que em breves palavras acabava de ouvir não era, não podia ser verdade! E que palavras foram? Tão somente estas: “O senhor, por ter mentido acerca das suas habilitações literárias, declarando menos do que as que efectivamente tinha, é promovido a alferes e vai de castigo para Moçambique”.

      Da imprudência em contar ao amigo em voz alta, onde todos podiam ouvir, factos que o comprometiam, resultou num castigo pesado. Daí, todo o seu desinteresse e alheamento pelos seus deveres, não só como militar, enquanto tal, mas, acima de tudo, como ser humano.

      Parado o tiroteio,  pegámos no jipe para ir buscar os “mortos”.  Chegados ao cais não vimos ninguém. Fizemos uma batida e nem sinais de Lúcio ou Ferraz. Encontrámos, sim, três ou quatro buracos feitos pelas morteiradas para ali despejadas. Continuando em direcção ao embondeiro fomos “tropeçar” com duas almas acagaçadas abrigadas atrás do largo tronco virado para o lago e coladas ao chão. Estavam irreconhecíveis!  A lama que os cobria era tanta que mais pareciam javalis que andaram por ali a chafurdar. O cagaço tinha sido tanto que até de nós, que éramos conhecidos, eles tinham medo! Só passado algum tempo, já refeitos do susto,  é que disseram como é que se safaram daquele ataque. É que tanto para um como para o outro, aquele foi o seu baptismo de fogo. Que de certeza nunca mais esqueceram. Bom, daquela safaram-se.  Para alívio de todos.