CÓBUÉ – PRISÃO DE INOCENTES (Cont.)
À pergunta
do Ten. Ferraz “Sargento Veloso, o que é o almoço?”, respondi-lhe: Senhor
tenente, o almoço vai ser: primeiro, uma caldeirada e ou peixe frito para quem
quiser; a seguir temos, estofados, patos numa caçarola e águias e corvos
noutra. Oh! Covos e águias?... Eu no
quero essas porcarias. Só quero pato! Pronto, Sr. Tenente, só come pato… E
arranquei dali a correr avisar o Costa: Olha, pá, vamos pregar uma partida ao
Sr. Tenente … vamos trocar os nomes aos “bichos”. Aos corvos e às águias chamamos-lhes patos e vice-versa, OK? Temos é
que avisar a malta toda para que não haja falhanço.
Tratando-se dum
Rancho da Porca, ainda que especial, comemos todos juntos. No paiol de géneros
para estarmos mais perto do vinho. E perto da cantina… da cerveja.
Depois da
caldeirada, primorosamente confeccionada, seguiu-se a carne. “Sargento
Velooooso (naquele sotaque tipicamente madeirense), olhe qu’eu nooo querooo cá
águia nem corvooo”. O pessoal está avisado, Sr. Tenente… ó rapaziada
(previamente ensaiada), o pato é prò Sr. Tenente. Claro que todos podem comer,
que há com fartura.
Criada alguma
barafunda com a ocupação de lugares e circulação de caçarolas, “o nosso
madeirense” enganou-se e começou a comer pato! A surpresa pôs-nos a olhar uns
para os outros e momentaneamente ficámos sem reacção. De repente ocorre-me uma
ideia: “Então Sr. Tenente Ferraz, disse que só queria pato e vejo-o a comer,
satisfeito, águia e corvo? Afinal gosta… Oh, oh! No gosto nada… tou a comer
pato (e estava). Não, o pato está naquela caçarola. Enganou-se. Confundiu uma
com a outra. Porra, foda-se! – berrava o
nosso visitante ao mesmo tempo que atirava para longe o pedaço de carne que
tinha nas mãos – eu tava a comer meio desconfiado porque não me sabia a pato…
Pois, passe agora a comer dali.
Ah! Este está bem!
É do que eu gosto. – Então coma, que há para aí muito. E comeu bem e bebeu
melhor. Só se queixava de que era muito dura aquela carne. “Que patos tão
rijos, mais rijos que os corvos, o molho é que tá bom”. Então molhe pão, faça
sopas que são mais macias – diziam-lhe alguns sarcasticamente. E sacanamene ainda lhe ofereci: prove a pata deste corvo… “Nem pensar! Só de me lembrar tenho nojo”!
No final da
petisqueira, já todos bem comidos e melhor bebidos e fartos de gozar a situação
sem o destinatário da chacota se aperceber há um que atira: Que tal estavam os
corvos e as águias? No sei, só provei “aqueles” no princípio e no gostei – foi
a resposta categórica. Ai comeu, comeu… e bastante – disseram todos em coro
debaixo de sonoras gargalhadas que deixaram o ingénuo Ten. Ferraz embaraçado,
que bem tentou, sem conseguir, fazer crer
que sabia ou desconfiava da partida, dizendo mesmo que às tantas teve a
percepção de que não era pato que estava a comer. Tarde de mais para disfarçar.
Caiu que nem um pato na caçarola dos corvos…
O resto do dia
foi passado “em cheio”, como o podem comprovar as fotos que enviei ao
Tintinaine, a quem peço o favor de ilustrar este trabalho com a(s) que ele achar que se enquadra(m) no
texto. Foi tão em cheio que nem um festival de fogo real e muito sério faltou…
FORAM CAÇAR E IAM
SENDO CAÇADOS
No auge da “cóbuéada” vem o Tenente Ferraz ter comigo para me dizer
que ele e o Lúcio (padeiro) iam lá para baixo, para as imediações do cais,
fazer uma caçada aos patos. Recebida a informação, fui logo avisar a marujada e
o Alferes Dias para este alertar o pessoal dele. E isto porquê e para quê? Ora
como muitos ainda estarão recordados, havia uma convenção em vigor para os
ocupantes do Colégio de S. Miguel que consistia em tomar imediatamente postos
de combate e reagir quando se ouvisse mais que dois tiros seguidos. Mais de
dois tiros sem serem anunciados era considerado ataque vindo do exterior.
Havia, portanto, que avisar todas as pessoas quando saíamos do recinto
demarcado prevenindo-as da possibilidade de serem feitos disparos.
Entretidos nas nossas palhaçadas, fomos
despertados por um violento tiroteio, desencadeado pela magala, pois que o
alferes esteve-se nas tintas para o aviso que lhe fora feito. Perante uma
situação completamente anárquica, em que cada soldado, sem rei nem roque,
tomava posições e disparava cegamente na direcção do cais, tive que intervir
mandando parar, receando que dentro em pouco tivéssemos de ir buscar dois
cadáveres… tal a intensidade do fogo de armas automáticas e morteiradas dirigido
aos “nossos caçadores”.
Intervim, mas não fui obedecido, ficando
eu naquele momento com a convicção de que aquela gente agia mais por instinto
do que em obediência a uma preparação prévia e adequada para o tipo de missão
que lhe fora destinada. E percebe-se porquê, como mais adiante explicarei.
Procurava eu impor alguma ordem naquele
granel, quando me aparece o Alferes Dias, desorientado, a tentar justificar o
injustificável e a pôr cobro àquele ataque selvagem. Com alguma resistência dos
seus próprios homens lá conseguiu “dar volta à faina” e mandar recolher as
armas. Como é de calcular, atirei-me a ele que nem gato a bofe – verbalmente,
claro – perguntando-lhe “E agora como vai ser, Sr. Alferes? Possivelmente temos
dois homens mortos por culpa sua… dois homens mortos da forma mais estúpida que
se possa conceber! Avisei-o, não avisei?
E o senhor o que é que fez? Foi para a sala de oficiais indiferente ao
que pudesse acontecer. Daqui em diante vai ter o diabo a tomar conta de si. Eu
cumpri com a minha parte que foi dar-lhe conhecimento. Há testemunhas. O
senhor, olhe, vá preparando a sua defesa”.
Ouviu tudo em silêncio, e em silêncio se
afastou de mim. Penso que naquele momento ele estaria a tomar consciência de
que a partir dali “mais um sarilho” iria bloquear-lhe a vida se calhar para
sempre. O primeiro sarilho foi aquele que ditaria o castigo de ser mandado para
Moçambique, para ali. Eu troco isto por miúdos. Segun do o relato de colegas
dele, antes de ser o Alferes Dias, tinha sido o Furriel Dias. Angolano, filho
de Administrador duma Circunscrição angolana, fez uma comissão como furriel
miliciano na guerra de Angola. Cumprido o tempo de tropa que lhe fora exigido
foi desmobilizado (passou à peluda, em gíria militar); à saída do quartel, já
trajando civilmente, encontra um antigo colega de estudos, trocam cumprimentos,
contam episódios recentes e recordam os passados, tudo em voz alta, pois a
euforia de se sentir livre não tinha limites e… “Meu Furriel, acompanhe-me por
favor ao Gabinete do Nosso Comandante” – pediu o comandante da guarda à
Unidade. O já ex-furriel ainda objectou que agora era civil e por isso não
tinha nada que obedecer, mas a ordem estava dada , tinha de ser cumprida.
Conhecida a sentença que em poucos
minutos foi decidida e em poucos segundos lida, o nosso agora já Alferes Dias
sentiu-se transportado para um mundo irrealista, estava distante de tudo que se
possa considerar material. Não, para ele tudo que em breves palavras acabava de
ouvir não era, não podia ser verdade! E que palavras foram? Tão somente estas: “O
senhor, por ter mentido acerca das suas habilitações literárias, declarando
menos do que as que efectivamente tinha, é promovido a alferes e vai de castigo
para Moçambique”.
Da imprudência em contar ao amigo em voz
alta, onde todos podiam ouvir, factos que o comprometiam, resultou num castigo
pesado. Daí, todo o seu desinteresse e alheamento pelos seus deveres, não só
como militar, enquanto tal, mas, acima de tudo, como ser humano.
Parado o tiroteio, pegámos no jipe para ir buscar os “mortos”. Chegados ao cais não vimos ninguém. Fizemos
uma batida e nem sinais de Lúcio ou Ferraz. Encontrámos, sim, três ou quatro buracos
feitos pelas morteiradas para ali despejadas. Continuando em direcção ao
embondeiro fomos “tropeçar” com duas almas acagaçadas abrigadas atrás do largo
tronco virado para o lago e coladas ao chão. Estavam irreconhecíveis! A lama que os cobria era tanta que mais
pareciam javalis que andaram por ali a chafurdar. O cagaço tinha sido tanto que
até de nós, que éramos conhecidos, eles tinham medo! Só passado algum tempo, já
refeitos do susto, é que disseram como é
que se safaram daquele ataque. É que tanto para um como para o outro, aquele
foi o seu baptismo de fogo. Que de certeza nunca mais esqueceram. Bom, daquela
safaram-se. Para alívio de todos.