domingo, 30 de dezembro de 2012

QUEIXINHAS DE VELHO


QUEIXINHAS DE VELHO RABUGENTO

 

Para aqui num canto sozinho

A lembrar-me do passado

Num Natal sem um carinho

Ai de mim que estou lixado…

 

Trabalhei uma vida inteira.

Mas talvez nem sempre bem…

…Se calhar, foi sempre mal.

Hoje ao calor desta lareira

Penso muito mais pr’além…

Julgo qu’é por ser Natal.

 

Construí uma família,

Hoje, estou sem ninguém!

Estou para aqui de vigília,

Vendo se aparece alguém.

 

Tenho filhas e tenho netos

Todos eles me convidaram

Para a Ceia de Natal.

Mas por quê eu, afinal

Que sofro dos joanetes

Tenho qu’ir pr’aonde “mandaram”?

 

Se houvesse mais sentimentos

Pelos que estão no fim da vida,

Muitos, muitos sofrimentos

Jamais teriam guarida.

 

Os novos a velhos chegam,

Pensem nisso seriamente.

Se não lançam a semente

Para colherem bons frutos,

Vão encontrar outros brutos

Que também não os aconchegam.

 

    “Inventem” felicidade para vocês e para os outros, pelo menos nesta quadra festiva (festiva para alguns).

 

 

 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

CAÇADA AOS PARASITAS


                                  CAÇADA AOS PARASITAS

      Já que o nosso amigo Carlos (Tintinaine) me lançou o desafio, agora que me ature, pois que as balas que eu tenho para disparar as vou pondo cá para fora em atenção a ele. Bem, convém deixar aqui um parêntesis para dizer que eu tenho absoluta liberdade para me exprimir da forma que me apetecer (que pode ser em forma de pseudo poesia e sem beliscar a honra seja de quem for) e ele, Carlos, tem toda a legitimidade para me mandar dar “volta à conversa” e ir rimar para outro lado. Enquanto ele se mantiver calado falo eu e para começar aí vai disto:

 

Anda pulga no meu colchão,

Sai daí pulga atrevida!

Só à custa de canhão

É qu’eu te tirava a vida.

 

Vá eu p’ra onde for

Não me largas, queres é sugar…

Não me deixas descansar

Arre, porra, que estupor!!!

 

Tomaste o gosto e agora

Quando queres já não hesitas.

Sai daí pulga, vai-te embora!

Estou farto de parasitas.

            ====oOo===

Coelho à solta é perigoso,

Fechado, só com firmes Portas

À caçador é que sabe bem,

Se aromático e apetitoso.

Gosta de andar pelas hortas

Mas foge se ouve alguém…

 

Covarde e fugidio.

É só ele e mais ninguém

Enquanto o pau vai e vem

Vai-nos comendo as couves.

Tem o instinto bravio

Gostas dele mas não o louves.

 

Estou roubado e agora velho,

Que fazer? É ir sem demora,

“Gaspar-me” daqui para fora

Montado naquele  escaravelho.

              ===oOo===

      E agora, para fechar, esta é para mim, que também tenho direito:

 

Quem te disse qu’eras poeta

Bem te fodeu e agora

Pira-te daqui para fora

Sem perda de tempo ó pateta!

 

FANTOCHADAS NATALÍCIAS


                                     FANTOCHADAS NATALÍCIAS

 

       Que me desculpem os crentes, as (poucas que ainda há) almas caritativas, os puritanos, os “bem pensantes”, os moralistas, filósofos, embusteiros, negociantes, parolos e as crianças enganadas (que são quase todas) eu referir-me à Quadra Natalícia (estive para escrever com minúsculas mas não sou assim tão quadrado…) em termos pouco convencionais, mas se o não fizer será cometer adultério para com a minha própria consciência. Isto é, usar uma linguagem diferente seria admitir o inverso daquilo em que acredito.

      Quadra propícia ao desencadear dum turbilhão de mentiras apoiadas em mitos e fantasias, ela presta-se (ou terá sido para isso que foi inventada) para alcançar dúbias finalidades, tão ao gosto de certas congregações religiosas, dos comerciantes, dos políticos – mormente dos governantes – e de outros oportunistas.

      As campanhas publicitárias atingem um tal grau de intoxicação psicológica que as pessoas de espírito mais frágil se deixam arrastar para a aquisição do que não lhes faz falta, comprometendo ainda mais uma situação económica já de si deficitária.

      É o dia da família – dizem do dia de Natal – é o dia em que todos se reúnem para confraternizarem, trocarem prendas e desejarem que o ano que está aí à porta seja repleto de coisas boas. Blá, blá, blá, comido o bacalhau, as filhós (filhoses como se diz na minha aldeia) e o peru cada qual retoma a rotina e adeus família até para o ano para mais uma dose de fantochada porque durante os outros 362/3 dias do ano ninguém passa a saber mais nada uns dos outros. Os mais novos raramente se lembrarão dos pais e ou dos avós, os idosos serão remetidos novamente ao reduto do esquecimento, quando não votados ao completo desprezo.

      Corre o tempo da desvalorização do ser humano como tal. Todos temos consciência disso. Neste mundo e época de incertezas valorizamos mais o HOJE e o EU em detrimento do AMANHÃ e do conjunto. Se eventualmente fazemos algo de bom ou temos um rasgo de generosidade para com o vizinho do lado não é com espírito genuinamente fraterno mas porque desejamos que quem nos rodeia repare no nosso gesto. O egocentrismo turva-nos a faculdade de aceitarmos o razoável. Somos casmurramente subjectivos e pouco objectivos. Temo-nos por alvos centrais do Universo, sobre que ou quem deve(m) convergir todas as atenções, esquecidos de que à nossa volta outras pessoas existem também com anseios e aspiraçãoes, com iguais direitos e deveres. E valores morais, profissionais, culturais e de personalidade.

      É Natal, há festas por todos os lados, assomos de caridade, espaço de confraternização: o Natal dos Hospitais, o Natal das Prisões, o Natal dos Sem-abrigo, o Nat… dos ricos…, dos pobres e… dos mortos. Sim, o Natal dos Mortos… Nesse dia também os mortos serão lembrados em muitos lares e locais. Serão eles os únicos cuja evocação será sincera, já que os vivos, ao promoverem um ritual cada vez mais despido de sentido, se entregam a uma manifestação de fachada, tentando esconder o que de facto são: VERDADEIRAMENTE HIPÓCRITAS.

      É Natal, quadra propícia ao “derramamento” dum vasto caudal de discursos alusivos, com especial destaque para os políticos, que tudo farão para anestesiar as mentes empedernidas e os desesperados da Vida, acenando-lhes com perspectivas dum porvir mais risonho. Sabem que estão a mentir mas também sabem a “qualidade” dos ouvidos que estão dispostos a escutá-los… Dentre todos esses políticos convirá estar atento a dois em especial: Presidente da República (dos Bananas) e do Primeiro-ministro. Desconheço se já proferiram o seu discurso ou ainda não. Seja como for espero, embora não os queira ouvir, que não tenham o descaramento de desejar um Bom Ano Novo ao Povo Português (àquele Povo que sem culpas nenhumas está agora a pagar com juros os roubos que os ricos deste antro cometeram com a conivência de quem governa), sabendo que o vão empurrar para a miséria. Se nos seus discursos empregarem esses termos, bem teremos que classificar tais discursos como sendo os mais cínicos de sempre cuspidos por quem tem pouca noção do que é vergonha e respeito pelo povo que os sustenta.

     Para terminar e sem cinismo, quero desejar a todos engenho e paciência para darem alguma cor e amor ao vosso Natal, e se puderem partilhar um pouco desse amor com mais alguém que dele necessite tanto melhor, e, olhem, o ano que está a chegar que não seja tão mau como receamos.     

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CAPITALISMO OU COMUNISMO?


CAPITALISMO OU COMUNISMO – QUAL O MELHOR (OU PIOR) SISTEMA POLÍTICO?

 

      É óbvio que a pergunta é propícia a respostas divergentes, como divergentes são as filosofias em que ambos se apoiam. Mas não é num curto espaço escrito e de tempo que vou traçar as virtudes e ou defeitos de qualquer deles, dado que tal seria um nunca mais acabar de contradições que a nenhum resultado prático levariam. Quero tão-somente compará-los à luz duma realidade que ninguém, por mais erudito que seja na matéria, ousará contradizer com seriedade.

O DESEJO DE POSSE

      Todos nós, sem excepção, desejamos possuir bens matérias. É apanágio do ser humano. Dizem os defensores do Capitalismo ser este o sistema que confere a cada um o direito à posse do que lhe pertence ou vier a pertencer, ao contrário do Comunismo, que não reconhece direitos sobre a propriedade privada, sendo tudo pertença do Estado. Repetido isto pelos paladinos de tão execrando quão desumano sistema, acolitados pelos papagaios ao seu serviço, os lambe-botas, é acolhido pelas massas populares menos esclarecidas como verdades, incutindo nos espíritos débeis a crença de que o Comunismo é a destruição dos valores que mais amamos. E é sobre esta insegura prancha que em mares agitados navegamos, constantemente receosos de irmos ao fundo sem sabermos bem a qual dos dois “amigos” nos podemos agarrar. Este raciocínio, fruto de refinado obscurantismo emana só de pessoas acéfalas (que infelizmente são ainda muitas) que se deixam conduzir por cabeças alheias e seduzir por gestos e palavras que outro objectivo não têm que não seja enganá-las.

      Não quero, por desnecessário, estabelecer nenhum confronto filosófico-dialéctico com os crânios bem- pensantes sobre o assunto, considerando que isso não levaria a nada. Quero só jogar com dados concretos, aqueles de toda a gente bem conhecidos e visíveis, e portanto indesmentíveis.

FACTOS BEM À VISTA

      Os capitalistas e os papalvos sonhadores que os ouvem embevecidos, pregam aos Quatro Ventos que o Capitalismo é o maior (senão único) garante da propriedade privada, do emprego, da saúde, da educação e da justiça igual para todos, ao contrário do Comunismo, essa aberração social em que nada é de ninguém e tudo é do Estado. Vamos ver se é verdade neste Portugal livre, democrático e capitalista:

      - Andei 58 anos a passar sacrifícios de vária ordem para comprar uma casa; comprei-a, paguei-a, fiz as respectivas escrituras, que também paguei. A partir daí eu era já um proprietário. Tinha uma casa… minha. Minha? – Não! Todos os anos o Estado me vinha pedir dinheiro por um bem que eu já tinha pago integralmente; a seguir comprei um carro que paguei no acto da compra. Passei a ter um carro… meu. Meu? – Não! Todos os anos eu tinha de pagar o(s) imposto(s) que o Estado me exigia; herdei dos meus pais uma pequena propriedade rural e comprei outra, tendo todos os anos cumprido com as imposições fiscais. Um azar porém bateu-me à porta… Ao terem-me roubado os subsídios anuais e cortado na pensão de reforma e como ando de pé graças aos muitos e caros remédios que tomo, deixei de pagar os impostos. O resultado foi confiscarem-me casa, carro e terrenos, que reverteram a favor do Estado.

      Chegados aqui é forçoso perguntar: afinal quem é mais ladrão? Será o Comunismo, que sendo o proprietário de tudo a todos assegura habitação, emprego, estabilidade económica e social ou o Capitalismo que não garante nada a quem o serve e se arroga ao direito de ser dono de tudo que tanto nos custa a ganhar? Sem ter pago nada, açambarca o que diz ser dos cidadãos. Despudorada mentira, como é peculiar em quem só sabe e quer viver à custa do suor alheio.

      Tudo que acabo de dizer não passa de uma constatação e algumas passagens deste texto são figurativas. Porque, para o meu gosto, se me derem a escolher um deles escolho… nenhum.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

   

domingo, 16 de dezembro de 2012

POESIA PACÓVIA


                 POESIA PACÓVIA

      Hoje, para desopilar, deu-me para isto… Não é para fazer “concorrência” ao Eduardo, porque esse tem lugar cativo nesta tribuna. É tão só para desintoxicar o espírito, demasiadamente poluído pelos acontecimentos dos últimos tempos. Não quero (porque não sou capaz…) enveredar pela presunção de que chegou a altura de revelar dotes de poeta ou lá o que é que se chama a alguém que num determinado momento se aventura a construir umas tantas palavras que rimam. O que me impele para esse tipo de comunicação é o choque que certas situações me provocam, que expressá-las de outra forma se me afigura menos estimulante para as consciências adormecidas. Abordarei, assim, quadros dispersos do quotidiano, aqueles que mais me feriram (e ferem) a atenção e para os quais eu gostaria de chamar também a atenção de todos, com especial destaque dos políticos.

VAGABUNDO

      Passava eu num espaço público de Lisboa e vejo um – dos muitos que enxameiam este País – sem-abrigo estendido no chão, coberto de algumas folhas de cartão, único agasalho ao seu alcance. Parei junto a ele, tirei-lhe algumas fotografias e prossegui o meu caminho ruminando estas palavras:

 

Dorme, vagabundo, dorme…                 

Esquece a hipocrisia enorme

Que grassa por este mundo.

Mas com falinhas de veludo

Fazem-te esquecer tudo

Dorme, dorme, vagabundo. 

 

                                                          

 O teu lar é a rua

 Dormes no chão… onde calha

 És pária, és escumalha

 Mas a culpa não é tua.

 

Vota “neles”, vai tendo fé,

Vai pensando que ainda contas…

És tolo porque descontas

O cinismo dessa ralé.

 

ISTO É UM ASSALTO!!!

      Paro… olho para trás… e que vejo? Um percurso pejado de dificuldades de toda a ordem; olho para o presente e… tenho medo do futuro. Sinto que estou a ser despudorada e desumanamente assaltado. E…

 

Ao pensar que já estou velho,

E tanto penei na vida,

Põe-me agora este fedelho

Neste beco sem saída!        

      

 Que país este, meu deus,

 Infestado de comilões?  

 Mentirosos e ladrões,

 Que matam o povo à fome.

  Pobre à mesa já só come

  O resto dos fariseus.

 

Olho à direita… está tudo feio!

À esquerda… feio está!

Do centro tenho receio,

Já não sei para onde vá.

 

 Todos bons a prometer…

  Mas a cumprir nem por isso…

  O que querem é comer

  Do porco? Nem um… chouriço.

 

Nesta pocilga infernal,

Neste beco sem saída

Onde os porcos tratam mal

A quem lhes dá a comida.

                                                                                                                                            

sábado, 8 de dezembro de 2012

CÓBUÉ - PRISÃO DE INOCENTES (CONT.)


CÓBUÉ – PRISÃO DE INOCENTES (Cont.)

 

      À pergunta do Ten. Ferraz “Sargento Veloso, o que é o almoço?”, respondi-lhe: Senhor tenente, o almoço vai ser: primeiro, uma caldeirada e ou peixe frito para quem quiser; a seguir temos, estofados, patos numa caçarola e águias e corvos noutra.  Oh! Covos e águias?... Eu no quero essas porcarias. Só quero pato! Pronto, Sr. Tenente, só come pato… E arranquei dali a correr avisar o Costa: Olha, pá, vamos pregar uma partida ao Sr. Tenente … vamos trocar os nomes aos “bichos”. Aos corvos e às águias  chamamos-lhes patos e vice-versa, OK? Temos é que avisar a malta toda para que não haja falhanço.

      Tratando-se dum Rancho da Porca, ainda que especial, comemos todos juntos. No paiol de géneros para estarmos mais perto do vinho. E perto da cantina… da cerveja.

      Depois da caldeirada, primorosamente confeccionada, seguiu-se a carne. “Sargento Velooooso (naquele sotaque tipicamente madeirense), olhe qu’eu nooo querooo cá águia nem corvooo”. O pessoal está avisado, Sr. Tenente… ó rapaziada (previamente ensaiada), o pato é prò Sr. Tenente. Claro que todos podem comer, que há com fartura.

      Criada alguma barafunda com a ocupação de lugares e circulação de caçarolas, “o nosso madeirense” enganou-se e começou a comer pato! A surpresa pôs-nos a olhar uns para os outros e momentaneamente ficámos sem reacção. De repente ocorre-me uma ideia: “Então Sr. Tenente Ferraz, disse que só queria pato e vejo-o a comer, satisfeito, águia e corvo? Afinal gosta… Oh, oh! No gosto nada… tou a comer pato (e estava). Não, o pato está naquela caçarola. Enganou-se. Confundiu uma com a outra.  Porra, foda-se! – berrava o nosso visitante ao mesmo tempo que atirava para longe o pedaço de carne que tinha nas mãos – eu tava a comer meio desconfiado porque não me sabia a pato… Pois, passe agora a comer dali.

    Ah! Este está bem! É do que eu gosto. – Então coma, que há para aí muito. E comeu bem e bebeu melhor. Só se queixava de que era muito dura aquela carne. “Que patos tão rijos, mais rijos que os corvos, o molho é que tá bom”. Então molhe pão, faça sopas que são mais macias – diziam-lhe alguns sarcasticamente.  E sacanamene ainda lhe ofereci:  prove a pata deste corvo…  “Nem pensar! Só de me lembrar tenho nojo”!

      No final da petisqueira, já todos bem comidos e melhor bebidos e fartos de gozar a situação sem o destinatário da chacota se aperceber há um que atira: Que tal estavam os corvos e as águias? No sei, só provei “aqueles” no princípio e no gostei – foi a resposta categórica. Ai comeu, comeu… e bastante – disseram todos em coro debaixo de sonoras gargalhadas que deixaram o ingénuo Ten. Ferraz embaraçado, que bem tentou, sem conseguir, fazer crer  que sabia ou desconfiava da partida, dizendo mesmo que às tantas teve a percepção de que não era pato que estava a comer. Tarde de mais para disfarçar. Caiu que nem um pato na caçarola dos corvos…

      O resto do dia foi passado “em cheio”, como o podem comprovar as fotos que enviei ao Tintinaine, a quem peço o favor de ilustrar este trabalho  com a(s) que ele achar que se enquadra(m) no texto. Foi tão em cheio que nem um festival de fogo real e muito sério faltou…

      FORAM CAÇAR E IAM SENDO CAÇADOS

      No auge da “cóbuéada”  vem o Tenente Ferraz ter comigo para me dizer que ele e o Lúcio (padeiro) iam lá para baixo, para as imediações do cais, fazer uma caçada aos patos. Recebida a informação, fui logo avisar a marujada e o Alferes Dias para este alertar o pessoal dele. E isto porquê e para quê? Ora como muitos ainda estarão recordados, havia uma convenção em vigor para os ocupantes do Colégio de S. Miguel que consistia em tomar imediatamente postos de combate e reagir quando se ouvisse mais que dois tiros seguidos. Mais de dois tiros sem serem anunciados era considerado ataque vindo do exterior. Havia, portanto, que avisar todas as pessoas quando saíamos do recinto demarcado prevenindo-as da possibilidade de serem feitos disparos.  

      Entretidos nas nossas palhaçadas, fomos despertados por um violento tiroteio, desencadeado pela magala, pois que o alferes esteve-se nas tintas para o aviso que lhe fora feito. Perante uma situação completamente anárquica, em que cada soldado, sem rei nem roque, tomava posições e disparava cegamente na direcção do cais, tive que intervir mandando parar, receando que dentro em pouco tivéssemos de ir buscar dois cadáveres… tal a intensidade do fogo de armas automáticas e morteiradas dirigido aos “nossos caçadores”.

      Intervim, mas não fui obedecido, ficando eu naquele momento com a convicção de que aquela gente agia mais por instinto do que em obediência a uma preparação prévia e adequada para o tipo de missão que lhe fora destinada. E percebe-se porquê, como mais adiante explicarei.

      Procurava eu impor alguma ordem naquele granel, quando me aparece o Alferes Dias, desorientado, a tentar justificar o injustificável e a pôr cobro àquele ataque selvagem. Com alguma resistência dos seus próprios homens lá conseguiu “dar volta à faina” e mandar recolher as armas. Como é de calcular, atirei-me a ele que nem gato a bofe – verbalmente, claro – perguntando-lhe “E agora como vai ser, Sr. Alferes? Possivelmente temos dois homens mortos por culpa sua… dois homens mortos da forma mais estúpida que se possa conceber! Avisei-o, não avisei?  E o senhor o que é que fez? Foi para a sala de oficiais indiferente ao que pudesse acontecer. Daqui em diante vai ter o diabo a tomar conta de si. Eu cumpri com a minha parte que foi dar-lhe conhecimento. Há testemunhas. O senhor, olhe, vá preparando a sua defesa”.

      Ouviu tudo em silêncio, e em silêncio se afastou de mim. Penso que naquele momento ele estaria a tomar consciência de que a partir dali “mais um sarilho” iria bloquear-lhe a vida se calhar para sempre. O primeiro sarilho foi aquele que ditaria o castigo de ser mandado para Moçambique, para ali. Eu troco isto por miúdos. Segun do o relato de colegas dele, antes de ser o Alferes Dias, tinha sido o Furriel Dias. Angolano, filho de Administrador duma Circunscrição angolana, fez uma comissão como furriel miliciano na guerra de Angola. Cumprido o tempo de tropa que lhe fora exigido foi desmobilizado (passou à peluda, em gíria militar); à saída do quartel, já trajando civilmente, encontra um antigo colega de estudos, trocam cumprimentos, contam episódios recentes e recordam os passados, tudo em voz alta, pois a euforia de se sentir livre não tinha limites e… “Meu Furriel, acompanhe-me por favor ao Gabinete do Nosso Comandante” – pediu o comandante da guarda à Unidade. O já ex-furriel ainda objectou que agora era civil e por isso não tinha nada que obedecer, mas a ordem estava dada , tinha de ser cumprida.

      Conhecida a sentença que em poucos minutos foi decidida e em poucos segundos lida, o nosso agora já Alferes Dias sentiu-se transportado para um mundo irrealista, estava distante de tudo que se possa considerar material. Não, para ele tudo que em breves palavras acabava de ouvir não era, não podia ser verdade! E que palavras foram? Tão somente estas: “O senhor, por ter mentido acerca das suas habilitações literárias, declarando menos do que as que efectivamente tinha, é promovido a alferes e vai de castigo para Moçambique”.

      Da imprudência em contar ao amigo em voz alta, onde todos podiam ouvir, factos que o comprometiam, resultou num castigo pesado. Daí, todo o seu desinteresse e alheamento pelos seus deveres, não só como militar, enquanto tal, mas, acima de tudo, como ser humano.

      Parado o tiroteio,  pegámos no jipe para ir buscar os “mortos”.  Chegados ao cais não vimos ninguém. Fizemos uma batida e nem sinais de Lúcio ou Ferraz. Encontrámos, sim, três ou quatro buracos feitos pelas morteiradas para ali despejadas. Continuando em direcção ao embondeiro fomos “tropeçar” com duas almas acagaçadas abrigadas atrás do largo tronco virado para o lago e coladas ao chão. Estavam irreconhecíveis!  A lama que os cobria era tanta que mais pareciam javalis que andaram por ali a chafurdar. O cagaço tinha sido tanto que até de nós, que éramos conhecidos, eles tinham medo! Só passado algum tempo, já refeitos do susto,  é que disseram como é que se safaram daquele ataque. É que tanto para um como para o outro, aquele foi o seu baptismo de fogo. Que de certeza nunca mais esqueceram. Bom, daquela safaram-se.  Para alívio de todos.      

 

 

     

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

CÓBUÉ - PRISÃO DE INOCENTES

      Vivíamos num espaço delimitado por arame farpado em terra e pelo lago. Pôr um pé para lá do arame seria correr o risco de accionar uma mina e dizer adeus à vida ou ficar estropiado para sempre. Por via disso havia uma regra - incompreensível - que proíbia as praças de passarem para além dos limites individualmente. Só o poderiam fazer a nível de secção e acompanhadas por um sargento. Os oficiais e os sargentos podiam ir sozinhos ou acompanhados. Não me perguntem por quê porque não fui eu que fiz aquela norma... Nem a faria. 

      Quando não havia operações o pessoal entretinha-se nas mais variadas actividades: - Uns jogavam à batota; outros iam chapinhar para o lago; havia os que liam e também os que estudavam (preparando-se para provas e cursos no regresso à Metrópole); e quem se entregasse a um ritual penoso de "devorar" aerogramas a escrever a familiares, madrinhas de guerra e namoradas; para variar disputavam-se uns jogos de futebol no "estádio do Cóbué", um barroco por detrás do Colégio de S. Miguel que alguém pretendeu transformar em campo para jogos sem o conseguir porque quem ditava as leis da gravidade eram as fortes chuvadas ao arrastarem as terras e deixarem aquele espaço cheio de buracos e regatos. Mesmo assim e à falta de melhor organizavam-se ali renhidas partidas entre o pelotão (quase sempre desfalcado) e o destacamento e outras vezes contra o Exército.Fosse contra quem fosse praticavam-se sempre duas modalidades num jogo(?) só: Começava-se com futebol e acabava-se sempre com "coicebol" - uma modalidade criada por nós e que devia ser homologada já que todos a praticam  em todos os jogos com bola por esse mundo fora... Mas isso era dentro do campo.Cá fora íamos juntos tomar banho ao lago e a seguir próscopos.

      As instalações do colégio, todas em ruinas, foram divididas ao meio: - Metade foi ocupada pelo Exército; a outra metade pela Marinha. A parte que nos calhou fômo-la melhorando como melhor sabíamos e podíamos. Naqueles destroços conseguimos aplicar remendos para termos casernas, refeitório, cozinha, casas de banho (com bidões montados e cheios quando ere preciso pelo fogueiro que prestava serviço no aquartelamente para duches), botica, paiol, padaria, messes, camaratas, produzíamos electricidade e tínhamos água canalizada. Enfim, dentro do nada criámos muito, o indispensável para viver; no capítulo da organização e criação de bem-estar para o pessoal o Exército, talvez porque não era um posto (ou ponto) de permanência mas de passagem, não cuidava, como nós cuidávamos, da parte que lhe fora atribuída. Tinha lá um cabo, que pela aparência deveria ser já bastante antigo, a marcar presença para "defender a soberania". E como estava quase sempre sozinho juntava-se a nós, era mais um elemento da família maruja.

      PERIPÉCIAS AO ACASO
     
      Quando o tenente Ferraz foi promovido a 2º ten.RN foi "visitar" o pelotão na qualidade de seu comandante (nunca percebi por que razão o comandante ficou em Metangula tendo os seus homens ido para o Cóbué, mas isso eram contas do rosário do Barata Botelho e do Rosa Garoupa...). Recebida a mensagem da visita tratámos logo de lhe preparar uma recepção condigna. E nada melhor que uns petiscos "à Cóbué". Assim, combinámos fazer umas caçadas às espécies que havia ali à mão de semear, que eram os patos, as águias-pesqueiras e os corvos. As águias bastava esperá-las encostados ao embondeiro junto ao cais, atirar e apanhá-las; os patos-bravos esperávamo-los também no mesmo sítio mas caçá-los tornava-se mais difícil por andarem sempre a voar; os corvos é que eram mais fáceis de apanhar: bastava pegar na G3 e sentado na minha cama atirava de olhos fechados ao parapeito da janela da camarata e com um só tiro caía uma restolhada deles por detrás do forno. Aqueles desgraçados, para além de não prestarem para comer, por serem duros, ainda me faziam a vida num inferno de manhã à noite com aquele crucitar, empoleirados aos magotes mesmo à minha cabeceira, por cima duma gamela onde se despejavam os restos de comida para uns porcos que alguém levara para lá e onde aquelas aves agoirentas iam banquetear-se. No princípio foram três porcos, porém uma noite foi lá um leão e abasteceu-se... Deixou ainda dois. Um deles foi mordido por uma cobra mas não morreu. A cobra é que morreu. O porco comeu-a. Os porcos não morrem com o veneno das cobras - dizem os entendidos. Possuem um contra-veneno. Pelo menos aquele escapou embora a parte mordida tenha caído, seca, passado algum tempo.  
      Bem, meus amigos, não é meu hábito deixar serviços a meio, mas hoje vou ficar por aqui porque dentro de momentos vai jogar a nossa selecção e eu não quero perder esta oportunidade. Estas peripécias irão continuar oportunamente, tendo como figura central o tenente Ferraz e... outras.   

           

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

MERKL - VISITA (A PROPÓSITO DE COMENTÁRIOS)

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BloggerALBERTINO Veloso disse...
Que confusão aqui vai... Cada cabeça sua sentença e ainda bem que assim é. Melhor ainda quando se se pode expressar livremente. E como assim é, agarro-me ao legítimo direito de pôr cá para fora, oralmente ou por escrito, o que penso, me incomoda ou me apraz. Sendo assim, vou dizer frontalmente que o comentário aqui deixado que se coaduna com os meus pontos de vista é o da Senhora Elvira Carvalho, por traduzir uma realidade que não podemos nem devemos deixar perder na escuridão mental.
A Srª. Merkl e a Tróika, dois diabos à solta a assombrar (leia-se aterrorizar) o Mundo... É isso que também eu acho. Esta gente por onde passa só vai para colher o cereal e deixar o restolho... porque este não lhe serve para nada. Se servisse nem isso ficava. Tudo é verdade. Porém há uma outra verdade que (quase) ninguém refere, uns por ignorância outros por "partidarite" bacoca de que terceiros se aproveitam para continuarem a viver à rédea solta neste pântano de patos-bravos.
Antes de prosseguir com esta crítica viperina eu quero perguntar: somos ou não um país soberano? Se sim, por que permitimos a ingerência de estrangeiros nos assuntos (entenda-se modo de governar) que só a nós compete resolver? Se não - o que parece ser cada vez mais o caso - então a certidão de óbito já foi passada, faltando só fazer o funeral.Os cangalheiros já por aí andam... e não desistem de fazer o enterro que lhes convém.
Bem-vinda, sra. Merkl, à "república dos bananas". Tome conta disto definitivamente, visto que por cá não se consegue arranjar ninguém capaz, faça-se cidadã portuguesa ou faça-me a mim cidadão alemão mas, por favor, não venha dizer a esta cambada de parasitas incapazes de governar esta choldra, que me roubem mais.
Portanto, meus amigos e concidadãos, essa gente da estranja só cá vem (também parasitar) porque aqueles que deviam ser os governantes de Portugal permitem ou, pior ainda, os convidam.
P.S.: Vou tentar passar este comentário para onde possa ser mais lido. Se conseguir muito bem; se não, paciência.
(Afinal consegui!).
12 de Novembro de 2012 03:40

sábado, 10 de novembro de 2012

PEDRA DO FEITIÇO - CF7

      Como tinha prometido ao Laranjeira, e em resposta ao seu comentário sobre a nossa passagem por terras e águas do rio Congo (ou Zaire), começo por descrever - talvez seja melhor dizer historiar - o meu percurso até chegar à Pedra do Feitiço, creio que em setembro de 1969.
      Numa tarde de maio desse ano recebo um telefonema na Escola Naval - onde dava instrução aos cadetes - vindo da Brigada dos Fuzileiros, a dar-me ordens para me aprontar porque ia embarcar para Angola. Julgo que viajei no paquete Infante D. Henrique até Luanda, onde cheguei na véspera do "10 de junho". No dia seguinte "apanhei"  um daqueles aviões muito confortáveis da Força Aérea (...) rumo ao Leste, para substituir o sargento Neto Iria (ou Iria Neto?) que ali morrera. A viagem aérea terminou na Lumbala Nova, seguindo depois em botes pelo rio Zambeze até ao Chilombo, um aquartelamento construído pelos fuzos perdido nos  meandros da selva. Fui tomar conta duma secção da CF7 que reforçava o Destacamento do Medeiros Ferreira (como já anteriormente eu dissera, reforcei tantos destacamentos que me escapa a designação deles). Uns três meses depois fomos rendidos e iniciámos o regresso à Companhia, que eu ainda não conhecia, e decorridas três semanas menos um dia fazíamos a junção em cima daqueles penedos medonhos na Pedra do Feitiço, em frente à "Ilha do Suísso" e um pouco abaixo da cidade de Boma, ambas em território congolês na margem direita do rio.
      A nossa deslocação, dadas as circunstâncias decorrentes, foi uma autêntica odisseia, uma aventura de malucos. Malucos não (só) os que a viveram mas, acima de todos, os que a ordenaram (que bom dar ordens a partir de uma mesa enfeitada com garrafas de whisk e rodeado de sofás sorvendo o prazer refrescante do ar condicionado alheios à pouca sorte ou desgraça que sobre os comandados se abate. ainda melhor quando temos a certeza de que dessas etilizadas ordens vêm louvores, medalhas, promoções e prestígio). Ora vejamos: Da Lumbala  mandam uma secção comandada por um furriel para fazer a segurança duma coluna com oitenta viaturas - leram bem: oitenta viaturas - contando as militares e as civis a caminho de Teixeira de Sousa (hoje parece que Lau ou Luau); todas as viaturas, para além da carga específica, transportavam também passageiros, entre os quais nós, secção. A poucos quilómetros da saída do Chilombo instalou-se logo o granel com o atascanço dum dos camiões, por sinal aquele onde eu ia, que demorou quase um dia a tirar e sem ninguém saber o que era feito dos que seguiam à frente!... Fomos pernoitando onde calhava e como calhava, uns comiam qualquer coisa, outros fingiam que comiam e uns terceiros nem uma coisa nem outra, limitando-se a bocejar quando olhavam para os primeiros.  Chegados ao Marco 25 parámos (não me perguntem por que lhe chamavam isso, que eu não sei... só sei que se não tivéssemos saído dali eu hoje já não contava a história porque os mosquitos não deixavam). Era já noite. A escolta do Exército, que era quem tinha a responsabilidade da defesa da coluna, ordenou que era ali que se pernoitava. Ninguém gostou de ouvir aquilo e os ânimos aqueceram. Por quê? O furriel tinha razão. No Marco 25 terminava a missão dele. De Teixeira de Sousa devia vir a rendição. Quando chegámos já lá devia estar. Mas não estava e o capitão, entidade máxima na área, sentenciou que só seria rendido na segunda-feira seguinte, portanto daí a três dias, pois estávamos na sexta-feira. Claro que ninguém gostou de ouvir aquilo, sobretudo porque decorriam as festas da cidade e quase todos os condutores civis residiam e tinham lá as famílias.
      Ora sabendo a marujada que havia farra na cidade e não querendo perdê-la, procurou logo resolver a situação: Entusiasticamente apoiada pelos civis procurou logo arranjar à pressa um comandante que se responsabilizasse pela caravana até ao fim. E quem tinha que ser? Eu, pois claro. Só que eu não queria nem devia assumir tal responsabilidade primeiro, porque não era uma nomeação; segundo, porque eu era também um passageiro; terceiro, porque com "meia dúzia de espingardas" eu não podia garantir grande coisa para tantas viaturas. Berrei, mandei-os à merda e desapareci para longe.
     Passei longo tempo entregue às minhas cogitações, escondido e em luta cerrada contra os mosquitos até que me foram descobrir e mais uma vez tentar convencer-me... e mais uma vez recusei. 
      Do lugar onde estava ouvia as vozes agitadas dos civis, cada um pondo cá para fora o que lhe ia na alma: "Eu vou-me embora, com ou sem escolta" - berravam uns; "Então vai que eu não saio daqui, porque não quero ver o 3º camião ir pelos ares como já foram os outros dois" - ripostava outro que preparava um monte de capim para passar a noite depois de ter comido as batatas com bacalhau que acabara cozer. "Foda-se"! vomitei eu entre dentes ali sozinho. Aquela situação incomodava-me. Quando vieram ter comigo pela terceira vez eu já tinha uma decisão tomada depois de aturada reflexão: São umas dezenas de viaturas, somos dez fuzileiros armados de G3, mais uns fuzileiros que vão a tratamento ou simplesmente para alguns dias de moina mas todos desarmados, e os civis que têm, cada um, pelo menos uma pistola, já dá para pôr os "turras" em sentido. Se somarmos a isto tudo o facto de ser de noite e por isso mesmo eles ao verem uma coluna tão extensa pensarem que somos muitos e bem armados não se arriscam a chatear-nos.
      Apresentado o meu plano e dadas as minhas instruções, distribuiu-se o pessoal ficando eu no último camião para ter a certeza de que ninguém ficava para trás.
      Luzes, muitas luzes via eu à minha frente a iluminar aquela noite soturna. De repente deixei de as ver. Ao atravessar um pequeno rio o camião, não conseguindo vencer o lamaçal deixado pelos antecedentes, atolou-se, ficando só eu e o condutor entregues a nós mesmos. Apesar do azar tivemos muita sorte. Tudo nos poderia acontecer naquela noite e naquele local. Com ramos, pedras e troncos de árvores conseguimos sair e continuar picada fora. Quando chegámos o silêncio era absoluto, era manhã. Os nossos companheiros de viagem até ao rio onde ficámos, chegaram cinco horas antes de nós!... Chegar a casa o mais depressa possível foi a preocupação primeira. Quem ficou para trás, ficou...
     Na tarde desse sábado, e no auge dos festejos, sou apresentado à população da cidade como herói pela aventura em que me meti e que me podia ter saido cara.
      De Teixeira de Sousa ao destino foram dias e noites de combóio, de navio e de lancha.
          E como esta história já vai longa, vou apenas acrescentar que no rio Zaire o mais acima que subi foi pouco além do posto da Macala. Fiz muitas incursões pelos rios Loé Grande e Loé Pequeno, tendo neles pernoitado algumas vezes a bordo das lanchas. Creio que, com esta explicação, fui suficientemente convincente quanto à veracidade da minha estadia/passagem por aquelas paragens. 

         




     

sábado, 27 de outubro de 2012

ETERNA SAUDADE

      Eterna Saudade é uma frase muito usada nas lápides dos cemitérios e nas páginas necrológicas de alguns jornais em memória dos mortos. São duas palavras que na maior parte das campas estão despidas de sentimentos e ocas de seriedade. É fácil constatar - diria que diariamente - haver relações ácidas, de figadal beligerância entre famílias, com destaque para alguns casais e irmãos mas, à partida para sempre de um deles, não faltam os comportamentos de fachada ao conferir ao defunto "honras" que lhe foram subtraídas em vida.
      A começar pela solenidade do velório e do funeral, passando pela profusão de flores depositadas nas sepulturas e acabar nas inscrições gravadas no mármore e ou no granito com a corriqueira "Eterna Saudade dos teus...", o ritual chega ser tão ridículo e hipócrita que quem conheceu e conhece bem aquelas pessoas não se contém sem emitir comentários jocosos.
      Muita sorte têm os agentes desses espectáculos macabros por os mortos já não verem nem falarem. Concerteza que se vissem e falassem desatariam aos berros para correr com os fantoches que à custa da sua morte estão a pretender fazer passar uma bondade que não têm e limpar uma imagem demasiado suja.
      Que importa agora ao finado que lhe "dêm" as flores, se em vida só recebeu os espinhos? Agora, flores ou tojos, é tudo a mesma coisa; que felicidade pode ele sentir ao "ver-se" dentro dum caríssimo "palácio" de granito enfeitado com figuras sagradas e palavras (pseudo)sentimentais, se em vida morou só dentro de tugúrios rodeado de pobreza, aturava o diabo e só ouvia obscenidades?
      Se o assunto não fosse tão sério havia razão para, num bafo de humor selvagem, dizer que há mortos para quem foi preciso morrer para passarem a "viver" melhor que quando viviam... Mas há excepções. E muitas.

MAS A SAUDADE EXISTE

      Faz hoje cinco anos. Marcava o meu relógio 14 horas quando recebo de Setúbal a demolidora notícia: Albertino, o seu irmão morreu! Fiquei petrificado. Acabara de perder o meu maior amigo. Foi melhor para ele que, no estado lastimoso de saúde com que se debatia havia longos anos, foi contemplado com o merecido descanso. A vida dele terminou. O seu sofrimento e preocupações também. Para mim ficou o "monstro pesado" da saudade. A minha vida daí para cá nunca mais foi - nem será - a mesma. Tudo se alterou. O sentido das coisas tomou outras direcções... que não sei quais. Sinto permanentemente a sua falta. Decorreram cinco anos mas... foi agora.
      Nós não éramos "só" irmãos; éramos, acima de tudo, verdadeiros amigos, característica rara entre irmãos, ainda que na generalidade (quase) todos conservem uma relação fraterna (como sabemos, nem sempre os irmãos são os melhores amigos).
      Foi o primeiro de sete irmãos a partir. Depois dele foram mais dois. Pese embora a amizade que me ligava a estes últimos, aconselha a verdade que diga não ter nenhum destes deixado as marcas indeléveis do primeiro.
  
MORTOS E FUNERAIS

       Cerca de um mês antes do desenlace pedira repetidamente a quem com ele privava: "Chamem o Albertino... quero falar com ele". Eu era o seu único confidencial e em quem ele depositava ilimitada confiança, Fazendo um derradeiro  apelo às minhas poucas forças - na altura seriamente afectadas por uma série de doenças que combinaram vir todas juntas - desloquei-me do Carregal do Sal, Viseu, a Setúbal para o ouvir. Esforço inglório. Não ouvi nada. Nada me disse. Fiquei uma tarde sentado junto à cama em que ele lutava pela vida, pensando que nunca mais o veria. E não mesmo. Nem morto. Não suporto a visão dos mortos. Não estou preparado para lidar com a morte, Também não vou a funerais. Horrorizam-me as cenas que se geram em torno dum acto que deveria ser grave e recolhimento. Os gritos lancinantes e os ataques de histerismo forjado afastam-me de qualquer cerimónia fúnebre. Um dia ou mais depois vou, sozinho, render a homenagem que todos os mortos me merecem. Ao meu irmão também fui, uma semana após, ao talhão 15, sepultura 63, no cemitério de Algeruz, em Setúbal, verter as lágrimas que sobraram para cima da terra que o cobria e encetava o processo da sua redução a pó.
      Para sempre adeus, meu querido irmão e amigo!!! 

MACACOS-CÃES

BloggerALBERTINO Veloso disse...
Ó António Querido, tem paciência mas tenho de te corrigir!... Macacos ladrões não há só no parque de Monsanto... Há-os por tudo quanto é sitio por esse País fora. Lá, é o zoo - ou se quisermos a selva - onde se junta uma pequena parte deles.
Mas voltando aos "macacos-cães do Tintinaine", de Moçambique, vou contar dois episódios, um passado comigo outro não sei se foi passado comigo se não... Eu já troco esta baralhada por miúdos: - O primeiro, estava eu na CF8, teve como palco uma serra lá para as bandas de Boane, já peóximo da Namaacha. O meu pelotão fora escalado para ir àquela zona fazer uma operação de reconhecimento durante três dias. Fomos largados algures na margem esquerda do rio Umbelúzi e o resto nós que nos desenrascássemos. Andámos, andámos e às tantas estávamos dentro dum pomar imenso. Não se via ninguém por ali... escusado será dizer que durante uns minutos passámos a ser "os donos" daquilo tudo... e tudo que era saco, mochila ou poncho, foi atafulhado de fruta. Andámos horas e horas com aquilo às costas, desce vales, sobe encostas (claro que íamos aliviando a carga pelo caminho), até que chegámos já quase noite ao cume da serra para pernoitar. Preparado o acampamento e "desensacadas" as rações de combate para a janta - que com tanta fruta ali estendida à nossa disposição já não era assim tão mau - começámos a ser visitados por um batalhão de macacos-cães, que sem vergonha nem medo (e se os ameaçávamos tornavam-se agressivos)encetaram um roubo desenfreado que até ponchos com laranjas nos levaram!
O segundo foi em Vila Cabral já na CF10. Havia naquela cidade uma casa que preparava um "coelho à caçador" simplesmente maravlhoso. Era um bocado carote (cem paus na altura) mas era de encher a mula. Uma dose dava para dois alarves... comi lá duas ou três vezes e gostei sempre. Até que, um dia, "rebenta uma bomba" por todo o distrito do Niassa: a casa fechou e o dono foi preso por andar a servir macaco-cão (que havia por ali às toneladas), a que toda a gente chamava coelho! Também Comi? Se calhar...
26 de Outubro de 2012 11:32
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