terça-feira, 11 de setembro de 2012

Moçambique - a chegada

                                    MOÇAMBIQUE - MINHA PAIXÃO (a chegada)

      No Aeroporto de Lourenço Marques (LM) estavam à nossa espera os transportes que nos levariam ao destino. O oficial e os sargentos seguiram para o Comando Naval (CN), as praças para o Aquartelamento da Machava. Por quê uns para um lado outros para o outro? Ora, como sempre foi apanágio dos portugueses, primeiro limpa-se o cu e depois é que se caga... Isto dito de forma mais urbana quer só dizer que primeiro mandam-se as pessoas para onde a sua presença foi pedida; depois se vê... em vez de se criarem atempadamente as condições básicas para as receber.
      Assim, enquanto decorriam as obras de construção do Quartel dos Fuzileiros, da responsabilidade da Engenharia do Exército, andaram os oficiais e os sargentos de "saco às costas" dum lado para o outro, a ser recebidos a contragosto pelos nossos anfitriões tanto no CN como a seguir na Estação Radionaval, como se fôssemos culpados da subtracção de algum conforto que tinham antes.
      Não fora o carácter preventivo por que fomos para ali, e por isso mesmo sujeitos às contingências duma guerra que se adivinhava, poderíamos dizer que fomos colocados numa estância de turismo, pois para além de usufruirmos de instalações modernas e confortáveis tínhamos campo de futebol, piscina olímpica, ringue de patinagem que servia para a prática de hóquei, andebol, volei, basquete e futsal e transportes da Marinha e públicos para a cidade. Os horários - excluída uma curta fase inicial de adaptação em que o clarim nos punha fora da cama às 0530 mas com o sol já alto - eram óptimos em variados aspectos, destacando-se a dispensa geral dos serviços da parte da tarde devido ao calor. Esse regime permitia a cada qual ir para onde e fazer o que quisesse. Então era um "vê se te avias" com o autocarro das duas da tarde cheio a caminho de Lourenço Marques. Acontecia era que, quando terminal no CN, já só levava o condutor (porque não podia sair antes...). Todos os passageiros foram ficando pelo caminho. Uns iam estudar, outros frequentar cursos profissionais e ou praticar modalidades desportivas e o "grosso da maralha" ficava na Baixa. Estes últimos, apeados, era vê-los (quase) em passo de corrida virados à Rua Major Araújo, vulgarmente conhecida por "rua do crime". Virados às portas dos bares, "arreda bifas que aí vêm eles"!!! Se não havia bifas, o que era raro acontecer, "sai uma tombazana tchunguila" que melungo também gosta.
      Passado um ano acabou o turismo... Cedendo às queixinhas dos Coca-colas, o CN mandou (re)instituir o horário normal, que era serviços de manhã e de tarde. E por quê? Porque a malta já enjoada de bifas e de pretas, começou a virar-se para as meninas dos liceus, quando não era para as filhinhas e para as mamãs nas esplanadas e nas praias, que sempre eram mais tenrinhas umas e menos abocanhadas outras.
   Claro que nem sempre foi moina. Periodicamente faziam-se umas saídas para o mar nos navios de guerra em exercícios e vigilâcia do Canal de Moçambique e umas patrulhas/operações de reconhecimento em terra. E é sobre uma dessas operações, a primeira que o meu pelotão fez, que eu quero relatar um episódio de que fui o principal protagonista. Merece ser recordado pela negativa e pelo caricato da situação. Os factos: - Saímos de manhã cedo em transportes nossos para as proximidades de Boane, onde nos largaram para nos dirigirmos a Mucapana que dista 50Km de Lourenço Marques (aliás Maputo), tendo como referêcia uma cantina no mato. Puseram-me uma carta geográfica e uma bússola nas mãos, e dali em diante eu que me desenrascasse até chegar ao destino. Para começar nada mau... À boa maneira dos nossos chefes, que nos obrigavam a fazer o que eles nunca fizeram nem fariam, andar dias e noites a pé, já que de jipe percorriam tudo, juntaram três provas numa só:  reconhecimento, orientação e sobrevivência! Como que por sacanice deixaram-nos num local cercado de floresta densa, a espaços intransponível, a obrigar-nos a recuos e desvios pondo-nos à prova os conhecimentos adquiridos para uso dos meios de orientação. Carregados cada um com a sua espingarda, capacete, material de sapa (na CF2 ainda se usava isso), mochila, ração de combate, cantil com 1 litro de água para 24 horas e com calor intenso, foi (era) inevitável que a Dona Sede viesse tomar conta de nós. Como estava já a acontecer com o pessoal todo suado e sedento. Então eu, responsável pelos homens da minha equipa, qual ama seca a tomar conta de tantos bebés, ia recomendando: ó rapaziada, poupem a água que ainda temos um dia e uma noite pela frente até recebermos a próxima. Qual quê... a força da sede era mais forte e ainda não era meio dia já ninguém tinha uma gota! E como muito bem prega Frei Tomás, também eu já não tinha... Daí para a frente foi um suplício.
      Continua oportunamente.

4 comentários:

  1. Estive lá... e francamente fico ansioso pelo próximo capítulo.

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  2. Faltava alguém com jeito para relatar estas coisas que já se apagaram da memória de muitos dos que as viveram. São estas histórias que fazem a História e ficam para a posteridade.

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  3. Gostaria que o Tenente Barrocas, ou o Sargento Moisés, contassem a história das nossas saídas, na CF8, porque era-mos mais jovens e o que mais recordamos, era o batuque nas aldeias indígenas, eu falo por mim, ia ao mais barato, porque a minha carteira sempre andou em crise.

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  4. Uma história bem contada por quem a viveu na realidade. Tem muito valor assim relatada, por ser verdadeira e não inventada!
    Algumas histórias tenho lido, referindo-se à guerra do ultramar, muitas mentiras contidas nelas verificar! A guerra não foi uma brincadeira, mas alguém dela se aproveitar. Boa tarde amigo Alberto Veloso, muitas terá para contar. Para que os amigos possam ler e responder com seus comentários. Quando escreve referindo-se Moçambique, recordo os meus vinte anos. Em Lourenço Marque-Maputo, só estive de passagem relâmpago. Desembarquei no porto de Nacala, e embarque no pouca terra pouca terra, de máquina a vapor, até Catur, depois de autocarros improvisados até Vila Cabral-Lichinga, e por lá andei cerca de trinta meses. Depois do lunho, Nova Coimbra, Cobué, passando por outras localidades onde o perigo mais espreitava. E finalmente, Metangula, onde permaneci desde O mês de Junho de 1965, até ao mês de Fevereiro de 1966, data de rendição e quase seis meses de mata bicho de regresso à Metrópole.

    Boa quinta-feira para você,
    amigo Veloso.
    Um abraço
    Eduardo.

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