Devido à falta de água surgiu um novo problema que me esforcei por resolver sem o conseguir: - Ao atravessarmos uma machamba (para quem não sabe: qualquer área de terreno cultivado) iam-nos aparecendo com regularidade no solo quente umas abóboras que pareciam melancias ou umas melancias que pareciam abóboras, a que a malta se atirava com avidez para mitigar a secura que era muita.
Receando ruins consequências para a saúde de todos a ingestão dum fruto que nenhum de nós conhecia, passei a proíbir o seu consumo.
Prosseguindo a marcha, agora já ao longo da linha férrea Lourenço Marques-Ressano Garcia, que percorremos durante horas até ao desvio para uma picada assinalada na carta, deparámos com outra machamba onde abundavam luzidios e provocadores frutos iguais aos anteriores. "Senhor sargento... senhor Veloso... deixe-nos apanhar só um"! Fod...!!! Vocês querem morrer envenenados ou quê? "Mas já lá vai tanto tempo e ainda não nos aconteceu nada"... Vão prò caraças... depois não se queixem... E permiti que fossem apanhar. Oh... então se estavam(os) todos assados com sede e passadas tantas horas depois de comerem as primeiras "abóboras" ninguém se tinha queixado, ah! deixá-los ir. E fui também! Apanhei a última, a que deixaram. Comi-a sofregamente. Soube-me a podre. Só no fim é que reparei que tinha bichos. Dei um pontapé no resto e larguei umas obscenidades. Menos de uma hora depois não conseguia andar com dores abdominais e febre. Dei instruções para que fosse comunicado ao comando que a operação fora interrompida e por quê. Não sei quanto tempo demorou a chegar um jipe com um médico e um enfermeiro para ser observado e transportado para um acampamento, local previamente marcado para a junção e pernoita de todas as equipas que haviam sido largadas em pontos diferentes. Foi-me administrada uma injecção e fornecido um comprimido Alazon (ou Alozon?) para pôr numa água choca que entretanto foram pedir para mim a uma palhota distante.
No acampamento e reunidas as equipas, procedeu-se à montagem da segurança e à escolha do melhor col(chão) para estender o corpo. Naquela escuridão cada um, tacteando, acomodava-se como podia. Debaixo duma árvore enormemente entroncada fiquei eu e mais alguns. Apalpa aqui, apalpa ali, encontrei para cabeceira algo duro e incómodo. É verdade que também ninguém esperava ir passar uma noite bem instalado. Nem sossegado... de noite iam ocorrer os inevitáveis exercícios para não se perderem os hábitos levados da Metrópole.
Nessa noite o exercício consistia num golpe de mão desencadeado por uma das equipas ao acampamento. Alvo principal, o posto de comando. O "inimigo", tacticamente bem adestrado, entrou e, sorrateiramente, "ataca" o tenente Mendes que possivelmente estaria a "passar pelas brasas". Estremunhado, o instinto de defesa leva-o a deitar as mãos ao "intruso". Só que naquela escuridão e barafunda quem ele apanhou foi a sua própria ordenança, o marinheiro sinaleiro, que estava ali deitado. Foi o bom e o bonito... O "desgraçado" do marinheiro, seguro pelos tomates (para não fugir, dizia o oficial) desatou aos berros que pôs tudo em alvoroço, e só foi solto quando o tenente Mendes teve a certeza de quem era o que tinha bem preso nas mãos. Esse incidente viria a "dar pano para mangas" durante toda a comissão, sobretudo a partir da altura em que começaram a surgir rumores sobre possíveis tendências na época tidas por anormais no elemento masculino...
De manhã cedo procedeu-se aos preparativos para retomar a marcha rumo a Mucapana, que distaria 25/30km. Já com alguma claridade diurna, foi possível ver melhor o local onde passámos a noite. Reparei então, todos reparámos, que me calhou para apoiar a cabeça uma caveira!!! Segundo o depoimento de um indígena que passava, a caveira pertenceu a um ancião que em vida mostrava o desejo de ser sepultado junto ao tronco daquela árvore. O achado, que naquelas paragens nada tem de anormal, deve-se ao facto de enterrarem os mortos a baixa profundidade o que, com a acção do calor, faz irradiar odores que atraiem necrófagos que se encarregam de trazer as ossadas à superfície.
Eu, não estando cem por cento recuperado, prossegui até ao fim.
Esperem por mais.
Numa palhota distante
ResponderEliminarCheio de dores abdominais
Tinha comido algo diferente
Que continha pequenos animais!
Seriam necrófagos
Vindos das ossadas
Até lhe causaram vómitos
Verdadeiras histórias passadas!
Mais um belo conto
Escreveu senhor Alberto Veloso
Estava sempre pronto
Em defesa da Pátria orgulhoso!
Boa noite para você, senhor a amigo Veloso,
um abraço
Eduardo.
Fui seu companheiro, na condição de subordinado, e confirmo o excelente relato das peripécias que passámos durante a referida operação. Eram as abóboras, melancias e tudo o que aparecia pela frente. Recordo que ao encontrar um pequeno limoeira com os limões em meia criação, enchi os bolsos e mesmo verdíssimos valeram mais que um refrescante sumo tomado numa esplanada em Lourenço Marques (hoje Maputo).
ResponderEliminarBem haja sargento Veloso por recordar estas situações marcantes durante aquela Comissão e por nem o Senhor nem eu as esqueci.
Um abraço.
J. Rosa Silva