sábado, 27 de outubro de 2012

ETERNA SAUDADE

      Eterna Saudade é uma frase muito usada nas lápides dos cemitérios e nas páginas necrológicas de alguns jornais em memória dos mortos. São duas palavras que na maior parte das campas estão despidas de sentimentos e ocas de seriedade. É fácil constatar - diria que diariamente - haver relações ácidas, de figadal beligerância entre famílias, com destaque para alguns casais e irmãos mas, à partida para sempre de um deles, não faltam os comportamentos de fachada ao conferir ao defunto "honras" que lhe foram subtraídas em vida.
      A começar pela solenidade do velório e do funeral, passando pela profusão de flores depositadas nas sepulturas e acabar nas inscrições gravadas no mármore e ou no granito com a corriqueira "Eterna Saudade dos teus...", o ritual chega ser tão ridículo e hipócrita que quem conheceu e conhece bem aquelas pessoas não se contém sem emitir comentários jocosos.
      Muita sorte têm os agentes desses espectáculos macabros por os mortos já não verem nem falarem. Concerteza que se vissem e falassem desatariam aos berros para correr com os fantoches que à custa da sua morte estão a pretender fazer passar uma bondade que não têm e limpar uma imagem demasiado suja.
      Que importa agora ao finado que lhe "dêm" as flores, se em vida só recebeu os espinhos? Agora, flores ou tojos, é tudo a mesma coisa; que felicidade pode ele sentir ao "ver-se" dentro dum caríssimo "palácio" de granito enfeitado com figuras sagradas e palavras (pseudo)sentimentais, se em vida morou só dentro de tugúrios rodeado de pobreza, aturava o diabo e só ouvia obscenidades?
      Se o assunto não fosse tão sério havia razão para, num bafo de humor selvagem, dizer que há mortos para quem foi preciso morrer para passarem a "viver" melhor que quando viviam... Mas há excepções. E muitas.

MAS A SAUDADE EXISTE

      Faz hoje cinco anos. Marcava o meu relógio 14 horas quando recebo de Setúbal a demolidora notícia: Albertino, o seu irmão morreu! Fiquei petrificado. Acabara de perder o meu maior amigo. Foi melhor para ele que, no estado lastimoso de saúde com que se debatia havia longos anos, foi contemplado com o merecido descanso. A vida dele terminou. O seu sofrimento e preocupações também. Para mim ficou o "monstro pesado" da saudade. A minha vida daí para cá nunca mais foi - nem será - a mesma. Tudo se alterou. O sentido das coisas tomou outras direcções... que não sei quais. Sinto permanentemente a sua falta. Decorreram cinco anos mas... foi agora.
      Nós não éramos "só" irmãos; éramos, acima de tudo, verdadeiros amigos, característica rara entre irmãos, ainda que na generalidade (quase) todos conservem uma relação fraterna (como sabemos, nem sempre os irmãos são os melhores amigos).
      Foi o primeiro de sete irmãos a partir. Depois dele foram mais dois. Pese embora a amizade que me ligava a estes últimos, aconselha a verdade que diga não ter nenhum destes deixado as marcas indeléveis do primeiro.
  
MORTOS E FUNERAIS

       Cerca de um mês antes do desenlace pedira repetidamente a quem com ele privava: "Chamem o Albertino... quero falar com ele". Eu era o seu único confidencial e em quem ele depositava ilimitada confiança, Fazendo um derradeiro  apelo às minhas poucas forças - na altura seriamente afectadas por uma série de doenças que combinaram vir todas juntas - desloquei-me do Carregal do Sal, Viseu, a Setúbal para o ouvir. Esforço inglório. Não ouvi nada. Nada me disse. Fiquei uma tarde sentado junto à cama em que ele lutava pela vida, pensando que nunca mais o veria. E não mesmo. Nem morto. Não suporto a visão dos mortos. Não estou preparado para lidar com a morte, Também não vou a funerais. Horrorizam-me as cenas que se geram em torno dum acto que deveria ser grave e recolhimento. Os gritos lancinantes e os ataques de histerismo forjado afastam-me de qualquer cerimónia fúnebre. Um dia ou mais depois vou, sozinho, render a homenagem que todos os mortos me merecem. Ao meu irmão também fui, uma semana após, ao talhão 15, sepultura 63, no cemitério de Algeruz, em Setúbal, verter as lágrimas que sobraram para cima da terra que o cobria e encetava o processo da sua redução a pó.
      Para sempre adeus, meu querido irmão e amigo!!! 

1 comentário:

  1. Só agora me apercebi que tinha conseguido publicar esta mensagem. Conseguiu recuperá-la ou teve que escrevinhar tudo de novo?
    Também eu sou um pouco (bastante) avesso ao jeito como se fazem as cerimónias fúnebres cá em Portugal. Faz parecer que só depois de mortos prestamos para alguma coisa.
    Tenho dito à minha mulher que quando morrer quero ser estendido em cima de uma tábua de pinho, enrolado com uma tira de pano de algodão, cremado e as cinzas atiradas ao mar, mas ela não vai nisso. Diz que depois de morto não posso dar ordens a ninguém e fará aquilo que quiser.
    Também não vou preocupar-me com isso. Cada um com a sua ideia.
    A saudade fica cá dentro e não desaparece por mais flores que ponham em cima do morto.

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