Fomos integrar, em diligência, o Destacamento do 1º tenente Serra Rodeia (o número esqueci-o, como já anteriormente dissera), mais tarde rendido pelo Destacamento do 1º tenente Pereira Bastos. Aquela rendição foi benéfica para nós pelotão, sobretudo do ponto de vista moral, mas também de ralacionamento, dado que os últimos, acabadinhos de chegar da Metrópole, ainda não tinham sido contaminados com o vírus que as guerras sempre infundem, ao contrário dos primeiro, completamente "apanhados", que andavam era necessitados de regressar a Lisboa depressa.
Ou porque melhor comandados, ou porque ávidos de "mostrar serviço", o certo é que apenas chegaram começaram logo a fazer estragos nas hostes inimigas. Armas capturadas e prisioneiros era um "vê se te avias"... Os prisioneiros, chegados à "Pousada de S.Miguel" eram separados em dois grupos: os guerrilheiros seguiam numa lancha para Metangula, onde a PIDE os esperava para os tratar como só ela sabia... Os elementos da população ficavam entregues a mim para os "civilizar"... Digamos que não era tarefa fácil pegar "naquilo" para eu tratar. A esta distância desse tempo ainda não é possivel esquecer aqueles corpos de crianças, mulheres e homens semi-desnudados, famintos e cobertos de feridas sem tratamento!
Primeiras medidas a tomar com carácter de urgência: captar-lhes a confiança em nós, limpando-lhes do espírito o fantasma incutido pela Frelimo de que os prisioneiros seriam queimados com gasolina (daí eles estarem sempre à espreita de uma oportunidade para fugir), arranjar-lhes roupas, levá-los ao banho, tratar-lhes as feridas e da saúde em geral na medida do possível e construir-lhes casa própria. Uma parte das roupas conseguia-a junto da "malta" que sempre tinha por lá uma camisa velha, uns calçoes ou uma camisola; outra parte ia procurá-la ao estabelecimento de modas mais próximo, que era o paiol de géneros, onde encontrava sempre uns sacos vazios que, com um buraco no fundo para enfiar a cabeça e um buraco de cada lado para enfiar os braços, e estava mais um problema resolvido. Com o vestuário pronto e toda a gente formada conduzia-os ao lago; tudo que fosse fêmea ia para um dos lados duma ilha de caniço e os machos para o outro lado. Todos despidos, havia que se lavarem bem com sabão azul que previamente fora disponibilizado. Lavadinhos e já vestidos com roupas (?) a cobrir-lhes os corpos, lá os conduzia (debaixo de formatura e qual passagem de modelos) à botica para lhes serem feitos os tratamentos tidos por necessários e possíveis. As sulfamidas, os comprimidos, as injecções, as vitaminas, pensos e ligaduras tinham nessas alturas um consumo invulgar. Para se ter uma ideia próxima do quadro lastimoso em que ali chegavam, basta lembrar, com espasmos no estômago, crianças sem dedos nos pés e algumas já sem parte dos pés... tudo consumido por quaisquer doenças que só os médicos saberão explicar!!!
Fui eu (deixem lá passar a cagança...) a escolher o local onde viriam a ser construídas as primeiras habitações. Foi na "avenida" frontal à igreja. Tudo com ordem e junto a nós. Eream eles próprios que escolhiam, recolhiam, transportavam as matérias precisas e construiam, com a nossa ajuda e orientação, as suas casas. E para que nada faltasse, até luz eléctrica exterir tinham. E guarda, por causa dumas coisas...
Há mais, para quando calhar.
Com esses pormenores, só mesmo quem estava dentro do assunto os poderá descrever, quero-lhe transmitir amigo Veloso que sigo atentamente as suas histórias,(Recordar é viver)!
ResponderEliminarO meu abraço
Já me esquecia: Tenho algumas fotos do Cobué, no:"Caminhada do Oeste" no caso de estar interessado claro.Esta do prove que não é um robô dá-me cabo da cabeça
Pelos vistos há muita coisa que me passou ao lado na comissão da CF8. Tirando duas ou três operações em que participei, não fiz mais que serviço de sentinela e trabalho de pá e pica.
ResponderEliminarBem, alguém tinha que o fazer, não é?
Venham mais histórias dessas que assim ficamos a conhecer a coisa por dentro.