Como tinha prometido ao Laranjeira, e em resposta ao seu comentário sobre a nossa passagem por terras e águas do rio Congo (ou Zaire), começo por descrever - talvez seja melhor dizer historiar - o meu percurso até chegar à Pedra do Feitiço, creio que em setembro de 1969.
Numa tarde de maio desse ano recebo um telefonema na Escola Naval - onde dava instrução aos cadetes - vindo da Brigada dos Fuzileiros, a dar-me ordens para me aprontar porque ia embarcar para Angola. Julgo que viajei no paquete Infante D. Henrique até Luanda, onde cheguei na véspera do "10 de junho". No dia seguinte "apanhei" um daqueles aviões muito confortáveis da Força Aérea (...) rumo ao Leste, para substituir o sargento Neto Iria (ou Iria Neto?) que ali morrera. A viagem aérea terminou na Lumbala Nova, seguindo depois em botes pelo rio Zambeze até ao Chilombo, um aquartelamento construído pelos fuzos perdido nos meandros da selva. Fui tomar conta duma secção da CF7 que reforçava o Destacamento do Medeiros Ferreira (como já anteriormente eu dissera, reforcei tantos destacamentos que me escapa a designação deles). Uns três meses depois fomos rendidos e iniciámos o regresso à Companhia, que eu ainda não conhecia, e decorridas três semanas menos um dia fazíamos a junção em cima daqueles penedos medonhos na Pedra do Feitiço, em frente à "Ilha do Suísso" e um pouco abaixo da cidade de Boma, ambas em território congolês na margem direita do rio.
A nossa deslocação, dadas as circunstâncias decorrentes, foi uma autêntica odisseia, uma aventura de malucos. Malucos não (só) os que a viveram mas, acima de todos, os que a ordenaram (que bom dar ordens a partir de uma mesa enfeitada com garrafas de whisk e rodeado de sofás sorvendo o prazer refrescante do ar condicionado alheios à pouca sorte ou desgraça que sobre os comandados se abate. ainda melhor quando temos a certeza de que dessas etilizadas ordens vêm louvores, medalhas, promoções e prestígio). Ora vejamos: Da Lumbala mandam uma secção comandada por um furriel para fazer a segurança duma coluna com oitenta viaturas - leram bem: oitenta viaturas - contando as militares e as civis a caminho de Teixeira de Sousa (hoje parece que Lau ou Luau); todas as viaturas, para além da carga específica, transportavam também passageiros, entre os quais nós, secção. A poucos quilómetros da saída do Chilombo instalou-se logo o granel com o atascanço dum dos camiões, por sinal aquele onde eu ia, que demorou quase um dia a tirar e sem ninguém saber o que era feito dos que seguiam à frente!... Fomos pernoitando onde calhava e como calhava, uns comiam qualquer coisa, outros fingiam que comiam e uns terceiros nem uma coisa nem outra, limitando-se a bocejar quando olhavam para os primeiros. Chegados ao Marco 25 parámos (não me perguntem por que lhe chamavam isso, que eu não sei... só sei que se não tivéssemos saído dali eu hoje já não contava a história porque os mosquitos não deixavam). Era já noite. A escolta do Exército, que era quem tinha a responsabilidade da defesa da coluna, ordenou que era ali que se pernoitava. Ninguém gostou de ouvir aquilo e os ânimos aqueceram. Por quê? O furriel tinha razão. No Marco 25 terminava a missão dele. De Teixeira de Sousa devia vir a rendição. Quando chegámos já lá devia estar. Mas não estava e o capitão, entidade máxima na área, sentenciou que só seria rendido na segunda-feira seguinte, portanto daí a três dias, pois estávamos na sexta-feira. Claro que ninguém gostou de ouvir aquilo, sobretudo porque decorriam as festas da cidade e quase todos os condutores civis residiam e tinham lá as famílias.
Ora sabendo a marujada que havia farra na cidade e não querendo perdê-la, procurou logo resolver a situação: Entusiasticamente apoiada pelos civis procurou logo arranjar à pressa um comandante que se responsabilizasse pela caravana até ao fim. E quem tinha que ser? Eu, pois claro. Só que eu não queria nem devia assumir tal responsabilidade primeiro, porque não era uma nomeação; segundo, porque eu era também um passageiro; terceiro, porque com "meia dúzia de espingardas" eu não podia garantir grande coisa para tantas viaturas. Berrei, mandei-os à merda e desapareci para longe.
Passei longo tempo entregue às minhas cogitações, escondido e em luta cerrada contra os mosquitos até que me foram descobrir e mais uma vez tentar convencer-me... e mais uma vez recusei.
Do lugar onde estava ouvia as vozes agitadas dos civis, cada um pondo cá para fora o que lhe ia na alma: "Eu vou-me embora, com ou sem escolta" - berravam uns; "Então vai que eu não saio daqui, porque não quero ver o 3º camião ir pelos ares como já foram os outros dois" - ripostava outro que preparava um monte de capim para passar a noite depois de ter comido as batatas com bacalhau que acabara cozer. "Foda-se"! vomitei eu entre dentes ali sozinho. Aquela situação incomodava-me. Quando vieram ter comigo pela terceira vez eu já tinha uma decisão tomada depois de aturada reflexão: São umas dezenas de viaturas, somos dez fuzileiros armados de G3, mais uns fuzileiros que vão a tratamento ou simplesmente para alguns dias de moina mas todos desarmados, e os civis que têm, cada um, pelo menos uma pistola, já dá para pôr os "turras" em sentido. Se somarmos a isto tudo o facto de ser de noite e por isso mesmo eles ao verem uma coluna tão extensa pensarem que somos muitos e bem armados não se arriscam a chatear-nos.
Apresentado o meu plano e dadas as minhas instruções, distribuiu-se o pessoal ficando eu no último camião para ter a certeza de que ninguém ficava para trás.
Luzes, muitas luzes via eu à minha frente a iluminar aquela noite soturna. De repente deixei de as ver. Ao atravessar um pequeno rio o camião, não conseguindo vencer o lamaçal deixado pelos antecedentes, atolou-se, ficando só eu e o condutor entregues a nós mesmos. Apesar do azar tivemos muita sorte. Tudo nos poderia acontecer naquela noite e naquele local. Com ramos, pedras e troncos de árvores conseguimos sair e continuar picada fora. Quando chegámos o silêncio era absoluto, era manhã. Os nossos companheiros de viagem até ao rio onde ficámos, chegaram cinco horas antes de nós!... Chegar a casa o mais depressa possível foi a preocupação primeira. Quem ficou para trás, ficou...
Na tarde desse sábado, e no auge dos festejos, sou apresentado à população da cidade como herói pela aventura em que me meti e que me podia ter saido cara.
De Teixeira de Sousa ao destino foram dias e noites de combóio, de navio e de lancha.
E como esta história já vai longa, vou apenas acrescentar que no rio Zaire o mais acima que subi foi pouco além do posto da Macala. Fiz muitas incursões pelos rios Loé Grande e Loé Pequeno, tendo neles pernoitado algumas vezes a bordo das lanchas. Creio que, com esta explicação, fui suficientemente convincente quanto à veracidade da minha estadia/passagem por aquelas paragens.
Chiça... Parece um filme!
ResponderEliminarAmigo Veloso, mas o Sr.Foi um Fuzileiro herói! Na sua fisionomia actual, não demonstra que a guerra lhe tivesse feito mal...Está cá para as curvas! Vá-nos contando mais histórias, estou a gostar.
ResponderEliminarO meu abraço