sábado, 8 de dezembro de 2012

CÓBUÉ - PRISÃO DE INOCENTES (CONT.)


CÓBUÉ – PRISÃO DE INOCENTES (Cont.)

 

      À pergunta do Ten. Ferraz “Sargento Veloso, o que é o almoço?”, respondi-lhe: Senhor tenente, o almoço vai ser: primeiro, uma caldeirada e ou peixe frito para quem quiser; a seguir temos, estofados, patos numa caçarola e águias e corvos noutra.  Oh! Covos e águias?... Eu no quero essas porcarias. Só quero pato! Pronto, Sr. Tenente, só come pato… E arranquei dali a correr avisar o Costa: Olha, pá, vamos pregar uma partida ao Sr. Tenente … vamos trocar os nomes aos “bichos”. Aos corvos e às águias  chamamos-lhes patos e vice-versa, OK? Temos é que avisar a malta toda para que não haja falhanço.

      Tratando-se dum Rancho da Porca, ainda que especial, comemos todos juntos. No paiol de géneros para estarmos mais perto do vinho. E perto da cantina… da cerveja.

      Depois da caldeirada, primorosamente confeccionada, seguiu-se a carne. “Sargento Velooooso (naquele sotaque tipicamente madeirense), olhe qu’eu nooo querooo cá águia nem corvooo”. O pessoal está avisado, Sr. Tenente… ó rapaziada (previamente ensaiada), o pato é prò Sr. Tenente. Claro que todos podem comer, que há com fartura.

      Criada alguma barafunda com a ocupação de lugares e circulação de caçarolas, “o nosso madeirense” enganou-se e começou a comer pato! A surpresa pôs-nos a olhar uns para os outros e momentaneamente ficámos sem reacção. De repente ocorre-me uma ideia: “Então Sr. Tenente Ferraz, disse que só queria pato e vejo-o a comer, satisfeito, águia e corvo? Afinal gosta… Oh, oh! No gosto nada… tou a comer pato (e estava). Não, o pato está naquela caçarola. Enganou-se. Confundiu uma com a outra.  Porra, foda-se! – berrava o nosso visitante ao mesmo tempo que atirava para longe o pedaço de carne que tinha nas mãos – eu tava a comer meio desconfiado porque não me sabia a pato… Pois, passe agora a comer dali.

    Ah! Este está bem! É do que eu gosto. – Então coma, que há para aí muito. E comeu bem e bebeu melhor. Só se queixava de que era muito dura aquela carne. “Que patos tão rijos, mais rijos que os corvos, o molho é que tá bom”. Então molhe pão, faça sopas que são mais macias – diziam-lhe alguns sarcasticamente.  E sacanamene ainda lhe ofereci:  prove a pata deste corvo…  “Nem pensar! Só de me lembrar tenho nojo”!

      No final da petisqueira, já todos bem comidos e melhor bebidos e fartos de gozar a situação sem o destinatário da chacota se aperceber há um que atira: Que tal estavam os corvos e as águias? No sei, só provei “aqueles” no princípio e no gostei – foi a resposta categórica. Ai comeu, comeu… e bastante – disseram todos em coro debaixo de sonoras gargalhadas que deixaram o ingénuo Ten. Ferraz embaraçado, que bem tentou, sem conseguir, fazer crer  que sabia ou desconfiava da partida, dizendo mesmo que às tantas teve a percepção de que não era pato que estava a comer. Tarde de mais para disfarçar. Caiu que nem um pato na caçarola dos corvos…

      O resto do dia foi passado “em cheio”, como o podem comprovar as fotos que enviei ao Tintinaine, a quem peço o favor de ilustrar este trabalho  com a(s) que ele achar que se enquadra(m) no texto. Foi tão em cheio que nem um festival de fogo real e muito sério faltou…

      FORAM CAÇAR E IAM SENDO CAÇADOS

      No auge da “cóbuéada”  vem o Tenente Ferraz ter comigo para me dizer que ele e o Lúcio (padeiro) iam lá para baixo, para as imediações do cais, fazer uma caçada aos patos. Recebida a informação, fui logo avisar a marujada e o Alferes Dias para este alertar o pessoal dele. E isto porquê e para quê? Ora como muitos ainda estarão recordados, havia uma convenção em vigor para os ocupantes do Colégio de S. Miguel que consistia em tomar imediatamente postos de combate e reagir quando se ouvisse mais que dois tiros seguidos. Mais de dois tiros sem serem anunciados era considerado ataque vindo do exterior. Havia, portanto, que avisar todas as pessoas quando saíamos do recinto demarcado prevenindo-as da possibilidade de serem feitos disparos.  

      Entretidos nas nossas palhaçadas, fomos despertados por um violento tiroteio, desencadeado pela magala, pois que o alferes esteve-se nas tintas para o aviso que lhe fora feito. Perante uma situação completamente anárquica, em que cada soldado, sem rei nem roque, tomava posições e disparava cegamente na direcção do cais, tive que intervir mandando parar, receando que dentro em pouco tivéssemos de ir buscar dois cadáveres… tal a intensidade do fogo de armas automáticas e morteiradas dirigido aos “nossos caçadores”.

      Intervim, mas não fui obedecido, ficando eu naquele momento com a convicção de que aquela gente agia mais por instinto do que em obediência a uma preparação prévia e adequada para o tipo de missão que lhe fora destinada. E percebe-se porquê, como mais adiante explicarei.

      Procurava eu impor alguma ordem naquele granel, quando me aparece o Alferes Dias, desorientado, a tentar justificar o injustificável e a pôr cobro àquele ataque selvagem. Com alguma resistência dos seus próprios homens lá conseguiu “dar volta à faina” e mandar recolher as armas. Como é de calcular, atirei-me a ele que nem gato a bofe – verbalmente, claro – perguntando-lhe “E agora como vai ser, Sr. Alferes? Possivelmente temos dois homens mortos por culpa sua… dois homens mortos da forma mais estúpida que se possa conceber! Avisei-o, não avisei?  E o senhor o que é que fez? Foi para a sala de oficiais indiferente ao que pudesse acontecer. Daqui em diante vai ter o diabo a tomar conta de si. Eu cumpri com a minha parte que foi dar-lhe conhecimento. Há testemunhas. O senhor, olhe, vá preparando a sua defesa”.

      Ouviu tudo em silêncio, e em silêncio se afastou de mim. Penso que naquele momento ele estaria a tomar consciência de que a partir dali “mais um sarilho” iria bloquear-lhe a vida se calhar para sempre. O primeiro sarilho foi aquele que ditaria o castigo de ser mandado para Moçambique, para ali. Eu troco isto por miúdos. Segun do o relato de colegas dele, antes de ser o Alferes Dias, tinha sido o Furriel Dias. Angolano, filho de Administrador duma Circunscrição angolana, fez uma comissão como furriel miliciano na guerra de Angola. Cumprido o tempo de tropa que lhe fora exigido foi desmobilizado (passou à peluda, em gíria militar); à saída do quartel, já trajando civilmente, encontra um antigo colega de estudos, trocam cumprimentos, contam episódios recentes e recordam os passados, tudo em voz alta, pois a euforia de se sentir livre não tinha limites e… “Meu Furriel, acompanhe-me por favor ao Gabinete do Nosso Comandante” – pediu o comandante da guarda à Unidade. O já ex-furriel ainda objectou que agora era civil e por isso não tinha nada que obedecer, mas a ordem estava dada , tinha de ser cumprida.

      Conhecida a sentença que em poucos minutos foi decidida e em poucos segundos lida, o nosso agora já Alferes Dias sentiu-se transportado para um mundo irrealista, estava distante de tudo que se possa considerar material. Não, para ele tudo que em breves palavras acabava de ouvir não era, não podia ser verdade! E que palavras foram? Tão somente estas: “O senhor, por ter mentido acerca das suas habilitações literárias, declarando menos do que as que efectivamente tinha, é promovido a alferes e vai de castigo para Moçambique”.

      Da imprudência em contar ao amigo em voz alta, onde todos podiam ouvir, factos que o comprometiam, resultou num castigo pesado. Daí, todo o seu desinteresse e alheamento pelos seus deveres, não só como militar, enquanto tal, mas, acima de tudo, como ser humano.

      Parado o tiroteio,  pegámos no jipe para ir buscar os “mortos”.  Chegados ao cais não vimos ninguém. Fizemos uma batida e nem sinais de Lúcio ou Ferraz. Encontrámos, sim, três ou quatro buracos feitos pelas morteiradas para ali despejadas. Continuando em direcção ao embondeiro fomos “tropeçar” com duas almas acagaçadas abrigadas atrás do largo tronco virado para o lago e coladas ao chão. Estavam irreconhecíveis!  A lama que os cobria era tanta que mais pareciam javalis que andaram por ali a chafurdar. O cagaço tinha sido tanto que até de nós, que éramos conhecidos, eles tinham medo! Só passado algum tempo, já refeitos do susto,  é que disseram como é que se safaram daquele ataque. É que tanto para um como para o outro, aquele foi o seu baptismo de fogo. Que de certeza nunca mais esqueceram. Bom, daquela safaram-se.  Para alívio de todos.      

 

 

     

2 comentários:

  1. Isto é aquilo que se chama "dois em um"!
    Sobre as fotografias só o administrador do blog, ou quem tiver descoberto a sua password, o poderá fazer.
    De qualquer modo já foram todas publicadas no «Cantinho do Tintinaine» e no «Escola de Fuzileiros» e vistas por todos os habituais visitantes e comentadores.

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  2. OLÁ amigo Veloso!Li a sua interessante história, do rancho da porca, do tenente Ferraz e do nosso padeiro Lúcio, estive em casa do lúcio há sensivelmente dois meses, contámos algumas histórias passadas no Cobué, mas ele esqueceu-se de me contar essa, eu sei que no rancho da porca até cobra e macaco lá foram comidos, mas o nosso cozinheiro temperava aquilo tão bem, que era comer e chorar por mais, foram belos tempos de camaradagem que não esquecem mais.
    O meu abraço

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