Antes de dar o badagaio
Vou deixar meu testamento.
Seja em janeiro ou maio
Esta vida já não aguento.
Entregue a tanto jumento
É preferível partir.
Seja a chorar ou a rir
Vou deixar o que me resta…
Deixo a vida que já não presta,
Deixo o sol e o vento.
Saudades vou levar poucas,
Da vida que sempre levei…
Se fui amado não sei,
Sei que amei e bastante.
Aturei cabeças loucas,
Viajei, fui navegante,
Fui alarve, fui galante,
Por tudo isso passei.
Vou deixar o que não levo,
Porque falta não me faz.
A morte será capaz
De me tratar com enlevo.
Deixo os dias e as noites,
Deixo a brisa do mar,
Deixo as marcas dos açoites,
Que me fartei de apanhar…
Deixo estradas e ruas,
Pra quem quiser passear.
Se os autores das falcatruas
Vos deixarem circular…
Deixo aos meus descendentes,
Dívidas para pagar…
Porque os incompetentes
Do que gostam é roubar.
Deixo gatunos aos montes,
Corruptos a governar,
Que enriquecem sem nos dar
Cavaco (…) das suas fontes.
Só quero levar comigo
A grande satisfação
De ter sido um bom amigo
Desta ingrata nação…
Que me’stá a roubar o pão
Que me custou a ganhar.
Foi ganho a trabalhar,
E agora não mo dão!
Porque é muito ladrão
Que tenho de sustentar.
Testamento muito cedo, ainda vai cá estar quando tudo isto mudar, e vamos ver com certeza o nosso rectângulo florir à beira-mar!
ResponderEliminarFeliz Páscoa com um abraço do Páscoa.
Belíssimo!
ResponderEliminarOntem andei ás voltas com uma internet muito instável que resolvia ir abaixo a cada tentativa de enviar o comentário. Acabei por perder a paciência, escrevi apenas a palavra «belíssimo», tentei de novo e ... passou. É mesmo a gozar co o parceiro.
ResponderEliminarQuanto ao testamento está uma coisa de se lhe tirar o chapéu. Eu bem digo que está aí escondida uma alma de poeta!
Boa Páscoa!
Uma maravilha! Diz-se que são sete as maravilhas do Mundo, pois aqui está a oitava.
ResponderEliminarUm abraço
Virgílio
Excelente, lindo....
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