quinta-feira, 28 de março de 2013

TESTAMENTO


 

Antes de dar o badagaio

Vou deixar meu testamento.

Seja em janeiro ou maio

Esta vida já não aguento.

Entregue a tanto jumento

É preferível partir.

Seja a chorar ou a rir

Vou deixar o que me resta…

Deixo a vida que já não presta,

Deixo o sol e o vento.

Saudades vou levar poucas,

Da vida que sempre levei…

Se fui amado não sei,

Sei que amei e bastante.

Aturei cabeças loucas,

Viajei, fui navegante,

Fui alarve, fui galante,

Por tudo isso passei.

Vou deixar o que não levo,

Porque falta não me faz.

A morte será capaz

De me tratar com enlevo.

Deixo os dias e as noites,

Deixo a brisa do mar,

Deixo as marcas dos açoites,

Que me fartei de apanhar…

Deixo estradas e ruas,

Pra quem quiser passear.

Se os autores das falcatruas

Vos deixarem circular…

Deixo aos meus descendentes,

Dívidas para pagar…

Porque os incompetentes

Do que gostam é roubar.

Deixo gatunos aos montes,

Corruptos a governar,

Que enriquecem sem nos dar

Cavaco (…) das suas fontes.

Só quero levar comigo

A grande satisfação

De ter sido um bom amigo

Desta ingrata nação…

Que me’stá a roubar o pão

Que me custou a ganhar.

Foi ganho a trabalhar,

E agora não mo dão!

Porque é muito ladrão

Que tenho de sustentar.

 

 

 

5 comentários:

  1. Testamento muito cedo, ainda vai cá estar quando tudo isto mudar, e vamos ver com certeza o nosso rectângulo florir à beira-mar!
    Feliz Páscoa com um abraço do Páscoa.

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  2. Ontem andei ás voltas com uma internet muito instável que resolvia ir abaixo a cada tentativa de enviar o comentário. Acabei por perder a paciência, escrevi apenas a palavra «belíssimo», tentei de novo e ... passou. É mesmo a gozar co o parceiro.
    Quanto ao testamento está uma coisa de se lhe tirar o chapéu. Eu bem digo que está aí escondida uma alma de poeta!
    Boa Páscoa!

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  3. Uma maravilha! Diz-se que são sete as maravilhas do Mundo, pois aqui está a oitava.
    Um abraço
    Virgílio

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