FANTOCHADAS NATALÍCIAS
Que me desculpem os crentes, as
(poucas que ainda há) almas caritativas, os puritanos, os “bem pensantes”, os
moralistas, filósofos, embusteiros, negociantes, parolos e as crianças enganadas
(que são quase todas) eu referir-me à Quadra Natalícia (estive para escrever
com minúsculas mas não sou assim tão quadrado…) em termos pouco convencionais,
mas se o não fizer será cometer adultério para com a minha própria consciência.
Isto é, usar uma linguagem diferente seria admitir o inverso daquilo em que
acredito.
Quadra propícia ao desencadear dum turbilhão de mentiras apoiadas em
mitos e fantasias, ela presta-se (ou terá sido para isso que foi inventada)
para alcançar dúbias finalidades, tão ao gosto de certas congregações
religiosas, dos comerciantes, dos políticos – mormente dos governantes – e de
outros oportunistas.
As campanhas publicitárias atingem um tal grau de intoxicação
psicológica que as pessoas de espírito mais frágil se deixam arrastar para a
aquisição do que não lhes faz falta, comprometendo ainda mais uma situação
económica já de si deficitária.
É o dia da família – dizem do dia de Natal – é o dia em que todos se
reúnem para confraternizarem, trocarem prendas e desejarem que o ano que está
aí à porta seja repleto de coisas boas. Blá, blá, blá, comido o bacalhau, as
filhós (filhoses como se diz na minha aldeia) e o peru cada qual retoma a
rotina e adeus família até para o ano para mais uma dose de fantochada porque
durante os outros 362/3 dias do ano ninguém passa a saber mais nada uns dos
outros. Os mais novos raramente se lembrarão dos pais e ou dos avós, os idosos serão
remetidos novamente ao reduto do esquecimento, quando não votados ao completo
desprezo.
Corre o tempo da desvalorização do ser humano como tal. Todos temos
consciência disso. Neste mundo e época de incertezas valorizamos mais o HOJE e
o EU em detrimento do AMANHÃ e do conjunto. Se eventualmente fazemos algo de
bom ou temos um rasgo de generosidade para com o vizinho do lado não é com
espírito genuinamente fraterno mas porque desejamos que quem nos rodeia repare
no nosso gesto. O egocentrismo turva-nos a faculdade de aceitarmos o razoável.
Somos casmurramente subjectivos e pouco objectivos. Temo-nos por alvos centrais
do Universo, sobre que ou quem deve(m) convergir todas as atenções, esquecidos de
que à nossa volta outras pessoas existem também com anseios e aspiraçãoes, com
iguais direitos e deveres. E valores morais, profissionais, culturais e de
personalidade.
É Natal, há festas por todos os lados, assomos de caridade, espaço de
confraternização: o Natal dos Hospitais, o Natal das Prisões, o Natal dos
Sem-abrigo, o Nat… dos ricos…, dos pobres e… dos mortos. Sim, o Natal dos Mortos…
Nesse dia também os mortos serão lembrados em muitos lares e locais. Serão eles
os únicos cuja evocação será sincera, já que os vivos, ao promoverem um ritual
cada vez mais despido de sentido, se entregam a uma manifestação de fachada,
tentando esconder o que de facto são: VERDADEIRAMENTE HIPÓCRITAS.
É Natal, quadra propícia ao “derramamento” dum vasto caudal de discursos
alusivos, com especial destaque para os políticos, que tudo farão para
anestesiar as mentes empedernidas e os desesperados da Vida, acenando-lhes com
perspectivas dum porvir mais risonho. Sabem que estão a mentir mas também sabem
a “qualidade” dos ouvidos que estão dispostos a escutá-los… Dentre todos esses
políticos convirá estar atento a dois em especial: Presidente da República (dos
Bananas) e do Primeiro-ministro. Desconheço se já proferiram o seu discurso ou
ainda não. Seja como for espero, embora não os queira ouvir, que não tenham o
descaramento de desejar um Bom Ano Novo ao Povo Português (àquele Povo que sem
culpas nenhumas está agora a pagar com juros os roubos que os ricos deste antro
cometeram com a conivência de quem governa), sabendo que o vão empurrar para a
miséria. Se nos seus discursos empregarem esses termos, bem teremos que
classificar tais discursos como sendo os mais cínicos de sempre cuspidos por quem tem pouca noção do que é vergonha e respeito pelo povo que os sustenta.
Para terminar e sem cinismo, quero desejar a todos engenho e paciência
para darem alguma cor e amor ao vosso Natal, e se puderem partilhar um pouco
desse amor com mais alguém que dele necessite tanto melhor, e, olhem, o ano que
está a chegar que não seja tão mau como receamos.
Sou um descrente militante, que vive esta quadra como se fosse uma Criança, talvez, quem sabe, porque não cheguei a ser Criança quando tinha idade para isso, nem prendas quando delas precisava.
ResponderEliminarDito isto estou em total acordo com o que a qui publicou.
Um resto de Feliz Natal para si e para os seus Familiares, pois está quase a chegar ao fim o dia 25.