REPORTAGENS DE GUERRA -
UMA PURA ALDRABICE
Seja onde
for que qualquer guerra se desenrole, há sempre quem delas se aproveite, ou não
fossem elas congeminadas e levadas à prática com o objectivo de tirar daí
proveitos. Não trazendo para aqui agora as chacinas, genocídios de povos
inteiros (vide índios americanos e etnias africanas, por exemplo), deslocações
em massa, roubos, violações, terrorismo, tráfico de armamento, de droga e
dinheiro, enriquecimento de uns e desgraça de outros, etc, etc,etc., as guerras
também servem para a promoção pessoal, alicerçar carreiras profissionais,
intoxicar pessoas e vender mentiras.
Reportando-me às guerras que conheci na pele e na alma – as guerras
ultramarinas – tive tempo suficiente e oportunidades (nas quatro comissões que
fiz em Moçambique e Angola) para estar legitimado moralmente a produzir
afirmações que só os cultores da aldrabice ousarão pôr em causa.
Confrange-me o despudor que alguns autores de livros que por todo o país
foram (e são) postos à venda, cuja finalidade é ganhar dinheiro usando o
trampolim duma guerra que não conheceram, baseando-se em suposições e relatos
dúbios. Para quem viveu as situações reais, tais escritos – por deturpadores -
só poderão ser atribuídos a aventureiros que outro fito não têm que não seja
arrecadar uns euros às custas da credulidade dos compradores.
Foram
muitas as situações que presenciei e que agora me habilitam a desmascarar,
ainda que os não identifique – um poderia fazê-lo mas não quero até ver…-
alguns que se arrojam a “botar faladura” sobre um tema que lhes é alheio.
Alheio porque a realidade lhes passou ao lado ou, melhor, foram eles que
passaram ao lado da realidade.
Quantas
vezes aconteceu sermos chamados aos respectivos comandos para recebermos a
ordem sacramental: “Senhor Fulano, amanhã, às tantas horas, tem de estar (no
aeroporto, estação…) com o seu pessoal para receber um repórter de guerra (do
jornal, revista…) que vem fazer a cobertura das nossas actividades
operacionais”.
O repórter
era recebido com todas as deferências, alojado nas melhores instalações,
abonado à messe dos oficiais onde nos dias de permanência tudo era à grande e à
portuguesa(…), fazia-se o turismo possível em zonas onde cheirava a esturro, e
por fim, como havia que vender notícia, simulava-se uma emboscada, um
golpe-de-mão ou outra merda qualquer para o filme, e lá partia de regresso o
nosso hóspede a fazer um figurão no órgão de (des)informação onde despejava
mentiras. Sair para o mato, onde a guerra fazia estragos, é que eles não
queriam…
Cheio
dessas patranhas, decidi uma vez, no leste de Angola, não colaborar. (Claro que
atitudes dessas saíam-me caras, tais como informações “homicidas”,
ultrapassagens nas promoções pelos sabujos, posta a PIDE no meu encalço e
outras canalhices que nada tinham a ver com competência nem dedicação ao
serviço). Mas vamos a factos: - Integrado no Destacamento de Fuzileiros
Especiais, em diligência, comandado pelo 1º Tenente Medeiros Ferreira, no
Chilombo, em 1969, é-me dado conhecimento, na qualidade de sargento mais
antigo, de que naquele dia e com hora prevista, chegaria o jornalista mais
famoso da revista mais afamada de Angola para fazer a cobertura do que faziam
os fuzileiros naquela nona de guerra. Tudo a postos, rancho melhorado, o
cozinheiro (ele sozinho mais maluco e bêbedo de que o Destacamento todo junto),
preparou uma carne de porco assado no forno com batatas para o jantar, que
merecia a medalha de ouro da culinária, mas, caraças, quando os impedidos
transportavam as bandejas da cozinha para as messes atravessando a parada, um
piso de areias soltas, apareceu um helicóptero com uma indígena que ia à rasca
para parir no nosso posto médico e adeus jantar, minha rica carne de porco… Ao
poisar na parada as hélices levantaram uma nuvem de pó e areia tão densa e alta
que inutilizou tudo que ia nas bandejas e tudo mais que estivesse descoberto.
Alguns ainda tentaram, como eu, aproveitar alguma coisa, mas… cada qual teve de
se desenrascar com petiscos. O nosso visitante, já instalado na messe de
oficiais, teve azar à sua chegada. Todavia os três dias seguintes foram de
férias bem comidas e bebidas sem pagar um chavo, embora se reconheça que nesses
dias também nós, por arrastamento, comíamos como gente importante…
O
programa, cozinhado na primeira noite, consistia em fazem um apanhado de toda a
actividade, a começar pela alvorada, formaturas, içar e arrear da Bandeira
Nacional, passando pelo teatro de operações em confronto com o inimigo. Isto,
claro, o que foi colocado no papel para posterior conhecimento público. Pois
sim… formaturas, alvoradas e tudo mais passado dentro do aquartelamento foi
mais ou menos cumprido; enfrentar o inimigo de máquina de filmar ou
fotográfica, como era mais arriscado, optou-se (optaram) por fazer uma
simulação de ataque e defesa no rio e margens com botes e armamento manejados
por fuzileiros escalados e voluntários, quais actores que levam o embuste tão a
sério que conseguem dar-lhe a aparência de ser verdade…
Para rematar
o quadro faltava, ao pôr-do-sol, a cerimónia do Arriar-da-Bandeira. Ali, como
era costume, só comparecia o sargento de dia, o cabo de dia para arriar e
recolher a Bandeira e a guarda de honra. Havia, como em quase todas as unidades
de Marinha, uma tabela/horário do pôr-do-sol, que divergia de dia para dia (
para os menos habituados ou distraídos lembro que o sol nasce e põe-se quase
todos os dias a horas diferentes, embora na Marinha, para efeitos do
içar-da-bandeira o dia só começa às oito horas). Mas naquele dia, “excepcionalmente”,
quiseram emprestar ao acto maior solenidade com a presença do 3º oficial (como
era para ir para os jornais – neste caso a revista – valia a pena…). Estava eu
de sargento de dia… aproximava-se a hora… mandei avisar o sr, tenente que
estava tudo pronto e qual a hora do arrear… ninguém mais aparecia e eu,
cumpridor dos regulamentos, procedi à cerimónia do arrear-da-bandeira e mandei
destroçar. Já dentro do meu alojamento, sou chamado e ameaçado de procedimento
disciplinar… O que se seguiu é que merecia uma rigorosa sanção disciplinar:
brincando com coisas sérias como é a
Bandeira Nacional, desrespeitando horários para fabricar uma aldrabice,
ordenaram uma nova cerimónia, já ao escurecer, agora com a presença de todo o
elenco teatral. Claro que ninguém gostou do meu “excesso de zelo”. Particularmente
o “nosso” repórter, que chegou a recear ter que apresentar um trabalho amputado
duma parte, visto que aquele era o último dia de turismo.
Coube-me a
mim, que tomei como represália, comandar a escolta que o haveria de acompanhar
ao avião na Lumbala. Para prevenir qualquer veleidade do MPLA ou outro “amigo”
que andasse ali à caça de nós, ordenei que se preparassem cinco botes com
quatro homens cada – dois botes junto a cada margem e um no meio do rio com a bazuca
– que as emboscadas naquele percurso eram mais que muitas.
Pouco
tempo decorrido aparece no aquartelamento a revista profusamente enfeitada com
fotografias e o título bombástico: TIGRES DO ALTO ZAMBEZE e toda a literatura
não passava, como eu já esperava, dum chorrilho de asneiras, que pouco diziam
duma realidade oculta. A começar pelo título (que considero um lapso natural,
pois o autor com certeza saberá que não há tigres em África, pelo menos naquela
parte de África e o que quereria dizer era LEÕES), a opinião pública saiu
enganada daquilo que viu e leu. E é de profissionais destes, de escribas
destes, de fazedores de notícias destes, que é feita a História de Portugal. E
não há excepções?... É verdade que as há. Mas essas, para nosso mal e delas,
são ofuscadas pelos aldrabões.
Fo...se!... O amigo Albertino Veloso ainda tem de certeza muitas histórias (deste calibre) para nos contar... Embora nesse tempo, qualquer peça jornalística tivesse que passar pela censura, uma das lições de hoje em qualquer Escola de Jornalismo, é exactamente o ensino de como contornar a história de maneira a chamar a atêncão com títulos bombásticos... O CM por exemplo utiliza sempre o Sensacionalismo para vender mais papel... Mas essa dos "Tigres do Alto Zambeze" foi demais!... Lembrando-me os episódios da RTP "Portugueses pelo Mundo" onde se gasta maningue de euros dos contribuintes para afinal se saber NADA SOBRE A EMIGRAÇÃO.
ResponderEliminarContadas na primeira Pessoa, vividas e sofridas assim sem aspas é outra coisa.
ResponderEliminarGostei do que aqui nos trouxe, e desejo-lhe muita saúde para nos ir dando conta de mais aventuras vividas por si, que devem ser mais que muitas.
Um abraço
Virgilio
Nem mais, nem menos
ResponderEliminarFica assim tudo dito
São os repórteres que temos
De grande gabarito...
É verdade, amigo Veloso
Dou-lhes graças por isso
Vale muito um teimoso
Quando for caso disso...
De paleio estamos fartos
De mentiras nem se fala
Devia, na verdade dos factos
Haver mais deferência e gala...
Muito se tem escrito
Por esses falsos profetas
Que omitem o veredicto
Como récua de bestas...