domingo, 27 de janeiro de 2013

PORTUGUESITOS



      Os Portugueses, este povo estranho no seu comportamento e maneira de pensar faz um bicho-de-sete-cabeças por tudo e por nada. Basta começar a pensar que nada corre bem neste País para desatar a clamar por melhores condições de vida e a fazer barulho por lhe suprimirem direitos adquiridos. À falta de melhores ideias e acções resolve, de tempos a tempos, vir para a rua fazer manifestações contra tudo aquilo que considera estar errado, culpando do seu mau viver os sucessivos governos, com destaque para o actual. Não se coíbe, até, de comparar outros países com o nosso, onde, no seu entender, é tudo melhor.
      Não! Se alguma vez estive em desacordo com tais afirmações esta é uma delas, porque em Portugal, quando julgamos que algo corre mal deveríamos julgar também que temos compensações inigualáveis em qualquer parte do mundo (dito) civilizado.
      Vamos ver: - Temos falta de emprego porque os nossos (des)governantes, em conluio com os seus parceiros europeus se têm encarregado de, paulatinamente, destruir a nossa economia, reduzindo a zero os factores de produção. Isso é verdade; mas, em compensação, temos FUTEBOL para animar e distrair nos amargos momentos que se atravessam; são milhares de estudantes a abandonar o ensino e consequentemente projectados para um futuro incerto por incapacidade económica dos pais para pagarem livros e propinas e o Estado se demite das suas responsabilidades educativas e culturais. Também é verdade; mas, em contrapartida, temos o FADO, esta canção nacional para anestesiar o espírito da malta que fica aos caídos em casa à espera dum emprego que não aparece e, tal como seus pais, aguardando que uma solidariedade qualquer os vá mantendo vivos enquanto não forem tentados a ir roubar para sobreviver.
      Há milhares (ou milhões?) de idosos que deixaram de aviar receitas nas farmácias, outros já nem ao médico vão por não terem dinheiro sequer para comer quanto mais para pagar taxas moderadoras e medicamentos? Estão os pensionistas na miséria e todos os reformados na iminência de atingir a indigência devida à diminuição das suas pensões, aumento do custo de vida e dos impostos? Aumenta dia-a-dia o número de suicídios e de lares desfeitos porque as pessoas se viram dum momento para o outro despojadas dos seus haveres engolidos pelo fisco e bancos porque o corte abrupto dos rendimentos de trabalho, por despedimento, impediu que se honrassem os compromissos? Adensa-se a multidão dos sem-abrigo com os despejados das casas onde moravam para a rua e de crianças que têm na escola a única refeição diária, porque os pais, mesmo recorrendo à “sopa dos pobres”, não conseguem mitigar a fome dos filhos? Aparecem todos os dias notícias de que são encontrados idosos mortos em casa onde viviam sozinhos? Ora, ora, todas essas questões e outras que ficam por colocar são verdadeiras mas, caramba, resta-nos a consolação de termos FÁTIMA ( a Fatinha, como carinhosamente gosto de a tratar) que tudo é capaz de resolver distribuindo milagres por quem lhos pedir a troco de muito dinheiro e ouro, que isso de fazer favores de borla já não se usa… Acontece porém é que nas grandes manifestações de fé, todos os anos e mais de que uma vez levadas a cabo, aquelas centenas de milhar de peregrinos que se juntam no santuário idos de todos os pontos do País e até do estrangeiro, deixam lá mais valores de que os milagres que levam. Mas isso será devido, talvez, aos muitos pedidos que fazem e a santa não ter tempo para atender todos, assim como não tem tempo para prevenir os muitos acidentes, alguns mortais, que se dão com os fiéis que se deslocam para receber as suas graças e deixar ofertas, bem como não impede que na sua divina presença se cometa um sem-número de crimes e ordinarices, a começar nos roubos estendendo-se aos atentados ao pudor. São pungentes as cenas de puro masoquismo, como não se vêm em mais parte nenhuma do mundo civilizado, protagonizadas por pessoas que se arrastam penosamente pelo chão, muitas vezes sangrando dos joelhos e levando consigo crianças, para cumprirem promessas por não terem morrido da operação ao cancro a que foram submetidas, esquecendo-se de que quem fez o “milagre” foram os médicos e todos os profissionais da saúde. Disso, claro está, não tem culpa a santa, assim como não tem culpa de ela própria ter sido fruto dum miraculoso embuste, dum conjunto de mentiras bem arquitectado e posto em prática.
      Como se vê, continuando nós a ter nos momentos cruciais da nossa vida FUTEBOL, FADO e FÀTIMA, por quê tanto pessimismo?
      Há que continuar em frente e mostrar aos estrangeiros que também temos por cá do maior que há. Por exemplo: se nos vierem dizer que os Estados Unidos da América e a Rússia têm as melhores equipas de cientistas, nós, que não queremos ficar atrás, podemos afirmar categoricamente que temos as melhores quadrilhas de ladrões escolhidas pelo povo; se disserem que nenhum país europeu paga tão mal aos seus trabalhadores como Portugal, nós, que somos orgulhosos daquilo que sempre fomos, respondemos que temos os maiores corruptos da Europa e dos maiores do Mundo; para os que nos atacam dizendo que os trabalhadores portugueses são os mais mal pagos da União Europeia, nós calamos-lhes a boca com esta: “Pois somos, mas em ‘contrapartida’ os nossos directores-gerais, presidentes de bancos, administradores e outros que tais, em quantidades (uns e outros) desproporcionadas, são os mais bem pagos do Universo, dando-se até o caso único de alguns receberem por mais de uma empresa, por empresas que não existem e outros nem os pés põem nalgumas das que estão em funções”!
      Então… não temos razões para sorrir? 

4 comentários:

  1. Oh não que não temos!
    Eu rio-me até me caírem as lágrimas!

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  2. No tempo do «António da Calçada» já assim era, Fátima,Fado e Futebol, não sei se por esta ordem, serviam que nem ginjas para distrair a Malta, hoje, e puxando a brasa á minha sardinha (vejo muito futebol, e oiço alguns fados) não será tanto assim, que diabo ao fim de quase quarenta anos sempre aprendemos alguma coisa, mas que se mantém actual o retrato aqui feito, e muito bem, não tenho dúvidas.
    E o que causa mais preocupação naqueles que vão tendo pelo menos um olho aberto para ver até onde nos estão a levar, é que não se vê que as coisas estejam a mudar, levámos com a anestesia-geral, em vez da epidural, só pode ser.
    Um abraço
    Virgilio

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  3. Muito bem amigo Veloso! O meu aplauso, são poucas mas BOAS!
    Eu só sei que nada sei, mas resta-me alguma fé, que depois de tantos sacrifícios as coisas mudem para melhor, também a mim a crise me bateu à porta, depois que saí da Marinha, sabia que a reforma dum pequeno empresário iria ser baixa e investi numa loja que tem estado sempre arrendada e servia de complemento à reforma, só que os cavalheiros de Lisboa entenderam acabar com tudo, ou quase tudo o que amealhámos com bastante sacrifício e a loja foi-me entregue no dia 1º de Janeiro, obrigando-me a fazer alguns cortes inesperados, isto está a ser difícil para muita gente, esperamos que realmente haja um milagre na cabeça de quem nos governa e deixem de pensar só neles!
    O meu abraço

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  4. Portugal sempre foi assim... Nunca aprendemos as lições que a História nos tem dado desde a fundação do Condado Portucalense... Um dia estamos cheios de anéis de ouro e no outro temos que os pôr "no prego"... Somos mesmo um povo estranho no nosso comportamento.

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